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Jornal da FEBRAP - Ano3 - nº5 - Dezembro de 1986. |
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Editorial: Por uma despedida!
Senhoras e senhores, eis nossas despedidas Junto, o Relatório das atividades desenvolvidas em nossa gestão. Com acertos e erros, vivemos este tempo de trabalho, perseguindo o objetivo maior da busca qualitativa do nosso amadurecimento. Fomos rígidos em muitos momentos, maleavéis em outros, buscando aproveitar o instante de seriedade porque passa o movimento. Muito ainda falta, no entanto, a ser dito e feito.
Será que conseguiremos manter o basta ao teatrinho? o basta
ao crescimento quantitativo e desordenado? o basta à produção de trabalhos quase que intutitivos, literários até, que pouco trazem de conteúdo científico? será que conseguiremos
manter o basta ao Psicodrama tãosomente técnica e o evoluir
para o Psicodrama método, ciência?
Já caminhamos significativamente por este processo evolutivo.
Já nos sentamos à mesma mesa com outras vertentes do
pensamento humano. Já fizemos nosso espaço fora de nossas fronteiras.
Já passamos a nos respeitar melhor!
Cumpre então, agora, no passar adiante a tarefa, manifestar de público a esperança de que não se estabeleça uma interrupção neste movimento. Cada um, sabedor de seu papel, precisa dizer presente! -ainda é momento de muito trabalho.
Na cena do Psicodrama Brasileiro, a contra-cena específica
do bom-senso. Porquanto dignidade e seriedade são palavras
que precisam ainda continuar parte do nosso vocabulário.
Com vocês, a abertura do próximo lance deste imenso jogo.
De nós, as nossas despedidas. Com nossas últimas palavras!
OEditor
(pela Diretoria que se despede)
Índice
VI Congresso Nacional de Grupoterapia - Rio de Janeiro - 25 a 26 de outubro de 1986
Relatório sobre o tema oficial:
"Desenvolvimento atual das técnicas grupais e suas aplicações nas diversas instituições"
Por:
Geraldo Francisco do Amaral
Terapêuta de Alunos
-Professor Supervisor da Sociedade Goiana de Psicodrama -
SOGEP
-Presidente da Federação Brasileira de Psicodrama -FEBRAP.
A abordagem das assim chamadas Técnicas Grupais reúne uma variedade enorme de
condições, propostas, atividades, emoções ideológicas,
todas significativas e, ao mesmo tempo, competentes em
seu discurso de solidarizar-se
com o sofrimento e a angústia do outro. Tem sido portanto, uma saída, mais que uma
ação definida, quiçá uma solução, depois de esgotados outros recursos. Tem sido também moda, terminando por
gerar excelentes trabalhos ao
mesmo tempo que algumas
confusões. Tem sido palco de
desentendimentos, na medida
que profissionais pouco preparados, tem lançado mão desses
recursos, de forma inocente e
perigosa. T em sido palco de
entendimentos, na medida em
que profissionais com formação adequada, tem mostrado o
seu valor e a necessidade imperiosa que o trabalho com
grupos se faz sentir, em nosso
atual contexto social.
Não proponho questionar
aqui, por estas vias, este tema
que, tão a propósito, a Comissão Organizadora traz para discussão, mas sim, abordar ligeiramente o que se faz, em
termos de Técnica Grupal nas
instituições, o método psicodramático.
Ligeiramente porque, falar
da Técnica Psicodramática no
seu desenvolvimento atual é
uma tarefa que exige um espaço de tempo alongado, pelo
alcance e pela gama de universos a que atende.
Da Psicoterapia de Grupo
ao atendimento grupal de qualquer espécie, as vertentes
são muitas e os objetivos variados. O consultório, o hospital, a indústria, a comunidade periférica, etc, apresentam características próprias
onde uma, ou mais de uma
dessas vertentes se encaixam,
possibilitando que o terapeuta,
ou o sócio-terapeuta, se assim
pudermos chamar, encontre o
seu campo de ação. Sabidamente uma necessidade, a influência das técnicas grupais
adentrando a instituição, fornece os meios necessários a um trabalho significativo, em
termos não apenas da pessoa
envolvida mas, e sobretudo,
do desvendamento dos meandros formais institucionais na
sua relação com o homem.
Ao cunhar, em 1931, a palavra Psicoterapia de Grupo e,
evidentemente dar-lhe o conteúdo teórico-prático essencial,
Moreno coloca uma possibilidade de trabalho que até então, os psicoterapeutas não
tinham viabilizado. Investigar, lidar e tratar a pessoa no
grupo e o próprio grupo em
sim, apresentava-se ainda como algo limitado. A investigação social implícita no próprio existir interelacional do
grupo, não se fazia notar, nem
necessária, nos tempos primordiais destes grupos terapêuticos. A mística psicanalítica desenvolvera toda uma
estrutura terapêutica, que se
revelara ciência, absorvendo
o interesse e a atenção dos estudiosos, de sorte que, a consideração do que importava
está centrada no indivíduo,
tão somente, tratando-o isolado no meio de um contexto
conservado sócio-cultural.
O trabalho terapêutico individualizado, sôbre seus conflitos, complexos, ou o nome que queiramos dar às dificuldades
emocionais e relacionais de
toda sorte que afligem a este
homem, realizou-se, e ainda se
realiza de forma notável e satisfatória. aiudando-o na con
quista da liberdade de seu mundo
interno.
Todavia, o aprofundamento
vertical, e apenas isto, faz do
homem um liberto com a visão
de si mesmo mas, com o risco
de, télicamente, desfavorecer-se
se quando da interação relacional.
Tal como o traço horizontal
de um T, que completa com o
traço vertical a própria letra
em si, possibilitando sua leitura e compreensão simbólica,
o aprofundamento vertical das
situações de mundo interno,
vale dizer, inconscientes, não
pode estar ausente do aprofundamento horizontal, que implica no momento existencial relacional, de compreensão do
outro através de si e, de si através do outro.
O resgate de tal situação
propôs Moreno, ao criar e
desenvolver as metodologias
psicodramática, socionômica
(sociometria, sociodinâmica,
sociatria) e da psicoterapia de
grupo.
A partir de uma proposta
prática, a psicoterapia de grupo com suas próprias leis (sociogenéticas, sociodinâmicas,
bases sociométricas, estruturas consciente e inconsciente,
etc) foi evoluindo mas, de certa forma cedendo espaço à
teoria e prática do psicodrama,
na medida que enveredaram,
os psicodramatistas, pelos
caminhos abertos.com a proposta moreniana, sem que,
com isso, extinguisse ou diminuísse, o alcance e o valor da
psicoterapia de grupo. Valor
que, aliás, se encontra presente a partir da postulação do
Princípio da I nteração Terapêutica, onde Moreno, claramente anuncia a função múltipla de cada pacienté no processo terapêutico do outro,
do grupo em si e até do próprioterapeuta, num sentido interacional onde não escapam as
Provas da Realidade ao lado
da conquista do seu próprio
mundo interno.
Assim, questiono o enfoque
que reduz a metodologia psicoterápica, especificamente a
psicodramática, a mera técnica grupal, buscando a compreensão básica de que a Socionomia e o Sociopsicodrama
são, enfim, partes de um método amplo que envolvem uma
técnica de ação eficaz e coerente, tanto no seu pressuposto teórico quanto no aspecto
da prática em si.
O caminhar natural deste
método foi o da descoberta do
que de terapêutico, pessoal e
social, nele reside, a partir
mesmo dos atos públicos e
trabalhos institucionais, confluindo depois para o consultório privado e, deste, concomitante e novamente, para o
trabalho público e institucional.
Assim, este trabalho psicodramático expande-se de forma a podermos considerar que
o seu desenvolvimento, e alcance, situa-se em vários vértices, a saber:
1 - Consultórios Privados -
trabalho desenvolvido a nível
terapêutico, com psicodrama
bipessoal individual e, sobretudo grupal; sóciopsicodrama
de casal e família, psicodiagnóstico e orientação profissional sóciopsicodramática, devendo ser ressaltado que em
alguns locais, tem-se trabalhado com sessões públicas semanais ou, sessões abertas
de psicoterapia, como tambérn
são designadas.
2 - Instituições Formadoras - em cada uma das 25 entidades de psicodrama que compõem a Federação Brasileira
de Psicodrama (FEBRAP) funciona um INSTITUTO, cuja
principal característica é o
atendimento, pelos alunos em
Formação Psicodramática, de
clientela de baixa renda. Cada
Instituto mantém sua forma
própria de atender, que vai
desde o trabalho a nível apenas
terapêutico até o trabalho institucional, de toda sorte.
3 - Psicodrama e Sociodrama
Públicos - Um recrudescimento das atividades públicas psicosóciodramáticas tem acontecido de alguns anos para cá, resgatando não só a origem, mas, e sobretudo, permitindo uma aproximação maior
com a população que, de uma
forma ou de outra, deseja um
benefício terapêutico sem submeter-se a processos de longo
alcance e profundidade, seja
nas instituições de ensino
psicodramático, seja nos consultórios privados. Ressalte-se que tais atos públicos acontecem de forma sistematizada,
em regra semanalmente e com
a direção de diferentes psicodramatistas.Com o restabelecimento das
atividades democráticas no
país, psicodramatistas brasileiros começaram a trabalhar
temas políticos da atualidade, através de sóciopsicodramas públicos, em ruas e instituições públicas e privadas. Sem caráter terapêutico
específico sobre a pessoa, individualmente, o sóciopsicodrama público se propõe a
tratar a doença social, o estigma, o medo, as situações sócio-político-ideológicas, levantando questionamentos, possibilitando e viabilizando um universo percentual imensurável, por parte da comunidade que participa de sua
ação concreta e ampla, obtendo-se verdadeiras cartases
públicas.
Da mesma forma, pela primeira vez em Congressos Nacionais de Psicodrama, durante o 5° Congresso Brasileiro
de Psicodrama, realizado em
maio/86, em Caldas Novas,
Goiás, a manhã do 3° dia foi
dedicada à realização de quatro atos públicos simultâneos.
A contribuição, no sentido
terapêutico, sócio-político e
até do processamento do próprio Congresso, foi concreta
e pertinente, trazendo as tensões geradas pela movimentação político-institucional, pelas competições e pela distribuicão sociométrica dos grupos
e pessoas, para serem trabalhadas em local adequado,
favorecendo, sobremaneira,
a interação das pessoas envolvidas nos diversos grupos do
movimento psicodramático.
4 - Trabalho Institucional -
aqui, um dos alcances maiores
da proposta existencial Moreniana. Chegando ao Brasil quase à mesma época do Psicodrama Terapêutico, o assim
chamado psicodrama Pedagógico, ou Aplicado, tem ocupado um espaço de importância no trabalho com o grupo
e o indivíduo, em instituições
de todo tipo. Dessa forma,
o Psicodrama Pedagógico tem
se utilizado dos seus recursos
maiores, como o sóciopsicodrama e o treinamento de papéis (Role-Playng), para chegar às empresas, hospitais,
escolas, universidades, associações de bairros, comunidades periféricas, órgãos públicos de toda espécie, partidos políticos, etc. A abordagem da relação
vincular através do roleplayng, do sociodrama, da
aplicação sociométrica, fazem
do sociopsicodrama um instrumento de alcance significativo, notada mente se pensarmos na pobreza perceptual,
vale dizer, alienação, que, via
de regra, encontramos em
nosso contexto sócio-cultural.
A cada momento observa-se
a maior busca deste recurso
metodológico, para a solução
de dificuldades nos grupos
institucionais. Trabalhar os
papéis jogados em cada situação e, basicamente na interação com o outro, assim como
trabalhar a interelação grupo-grupo, grupo-pessoa, grupo-instituição, instituição-pessoa,
etc, significa a possibilidade de
transformações afetas não
apenas à ideologia vigente,
ou dominante, mas a uma profunda reflexão, por todas
as partes envolvidas, da posição
criativa, do jogo de papéis
dentro da instituição ou do
sistema, do contexto cristalizado em uma conserva cultural.
Seria por demais extenso
nos determos a particularizar,
neste relato, cada uma dessas
formas transformadoras de
intervenção, próprias da metodologia sóciopsicodramática,
ficando, todavia, a expectativa de uma discussão mais elucidativa em plenário.
Assim, embora esteja fazendo uma abordagem absolutamente genérica, uma vez
que a faço em nome do psicodrama brasileiro, acredito
estar contribuindo com informações que permitam ampliar a discussão de nossas "técnicas grupais". Posto que a técnica somente,
empobrecida que fica sem um
competente suporte teórico,
acaba por tornar-se presa fácil daqueles que, por descaso ou desconhecimento, limitam-se a tomar desta técnica o que ela sozinha não
detém, ou seja, no caso do
psicodrama, fazendo apenas
um teatrinho, onde um choro
supostamente catártico, diante de uma cena sedutoramente
sofredora, terminam por dar
a impressão de que tudo se
resume àquilo ali representado, e não como no método, dramatizado, processado e
elaborado.
Assim, trago como palavra
final, a proposta de uma revisão pelos psicoterapeutas
das mais rliversas linhas, sobre a instituição psicoterápica. A discussão que estamos
fazendo aqui sobre técnicas
grupais e instituição, pode servir de aquecimento para que
possamos nos olhar critica-
mente, criticando construtiva,
espontanea e criativamente,
o desenvolvimento do nosso
papel profissional, dentro da instituição que habitamos.
Proponho que não se perca
de vista, a experiência deste Congresso, onde estamos
sentados frente a frente, para
um encontro, psicoterapeutas
de diferentes orientações teórico-práticas. Proponho que
nos entreguemos à tarefa de
nos discutirmos, confrontar o
saber, retirando do confronto,
o material necessário para a
nossa compreensão do outro e,
do saber do outro. Proponho
o encontro dentro dos princípios morenianos, que nos possibilite conversarmos sem dogmatismos e sem a onipotência
costumeira com a qual nos
apresentamos frente ao outro.
Proponho um sóciopsicodrama
do desenvolvimento da nossa
instituição.
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