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Jornal da FEBRAP - Ano1 - nº3 - Outubro/Novembro de 1985.




Outras Edições


Editorial: Carta ao Leitor

Hoje chega às suas mãos o número 3 do JORNAL DA FEBRAP. Traz êle um pouco dos acontecimentos destes últimos três meses no âmbito das Federadas, do C.N.F. e da Diretoria.
Tenta introduzir na Comunidade Psicodramática Brasileira duas discussões básicas: à concretização de um debate para a estruturação adequada de nossa "publicação Científica", a Revista da Febrap; o resgate de alguns dados históricos da origem ideológica do Psicodrama e hipótese sôbre o seu processo de aburguesamento.
Importantes a nível de informação, as várias matérias relativas ao V CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICODRAMA, que pretendem dar ao leitor uma idéia básica do que aspira ser o evento.
Os relatos de Landini e Geraldo sobre o "Encontro de Buenos Aires", trazem informações valiosas para que cada um de nós possa se sitUar no universo do Psicodrama neste momento de sua história.
Por fim, éfitre outras coisas, o JORNAL DA FEBRAP quer dizer-lhe, leitor, que lhe é extremamente prazeiroso poder levar até você todos estes informes e quer, neste momento, oferecer-lhe o seu espaço para o debate e a reflexão, no sentido de que Êle possa constituir-se, realmente, num catalizador do crescimento do PSICODRAMA NO BRASIL.

Índice



O Aburguesamento do Psicodrama

"... uma senda estreita de um rochedo, entre dais abismos, onde não existe segurança alguma de ciência enunciável, mas onde existe a certeza do encontro com aquilo que está encoberto".
MARTIN BUBER (3)

As reflexões que apresento aqui decorrem de duas ordens de estímu- los. A primeira está ligada à minha experiência como professor de teoria psicodramática, tanto no Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas quanto na Sociedade de Psicodrama de São Paulo. Com frequência os alunos reclamam da falta de uma estrutura teórica que embase com maior segurança a atividade psicoterapica. Consideram os conceitos básicos do pensamento moreniano como impreciosos, pouco articulados e de limitada utilidade na condução do trabalho terapêutico. Evidenciam, em geral, uma ponta de inveja em relação aos profissionais que atuam sob a égide da Psicanálise, que apresenta tanto um sistema conceitual mais claro e estimulante quanto uma ampla e profusa literatura.

A segunda ordem de estímulos tem como pano de fundo a primeira Reporta-me ao IV Congresso Brasileiro de Psicodrama, realizado em 1984, em Aguas de Lindóia. Da programação do conclave constaram duas mesas redondas a respeito dos temas "Caracterização do Psicodrama" e "Processamento em Psicodrama", respectivamente, e mais um forum de debates em torno dos últimos quatorze an~ de Psicodrama no Brasil.

A primeira mesa-redonda e o forum foram agitados pela tentativa de recuperação de dois aspectos do Psicodrama: a sua visão transformadora dá sociedade e o projeto científico de Moreno. Já a segunda mesa apresentou um esforço de conciliação entre as duas mais prestigiadas leituras do fenômeno psicodramático: a corrente que adota o modelo teórico conhecido como o "Núcleo do Eu", proposta por Rojas-Bermúdez (7), e aquela que se baseia nas formulações de Fonseca (4) a respeito do desenvolvimento da matriz de identidade.

Entre a primeira e a segunda mesa identifico movimentos em direções opostas. Ao discutir a caracterização do Psicodrama, o plenário se empolgou com a idéia de ampliação do âmbito de atuação do psicodramatista, tanto em termos de teoria quanto de prática: superar limites do Psicodrama-Clínica, alçando-se ao espaço Socionomia-Sociedade. Na segunda, pelo contrário,
buscou-se um espécie de coalisão reducionista, através de um acordo que traz, de forma implícita, o consenso de que a leitura psicodramática deve manter a ênfase em torno do conceito de matriz de identidade, transformado assim na espinha dorsal da teoria moreniana.

Em outras palavras, a primeira mesa -redonda aponta o caminho da compreensão do homem através de uma perspeCtiva multi-relacional, enquanto que a segunda defende a concentração na individualidade.

Essa tensão entre dois movimentos opostos suscita um reexame da história do Psicodrama, especialmente do Psicodrama brasileiro, para que possamos entender e superar esse impasse.

OS VALORES BURGUESES

O epíteto de burguês incorporou-se ao vernáculo para designar um sistema de valores questionado por uma visão revolucionária do mundo.
Afinal, que sistema de valores é esse?
O que a História nos mostra é que a burguesia surgiu como alternativa à organização feudal da sociedade. Nesta, as relações de poder eram definidas pelos polos senhor-servo, numa estrutura relativamente simples. Ao primeiro competia proteger os que a ele se agregavam e habitavam sua propriedade, pro~rcionando-lhes segurança contra invasores e ministrando a justiça; ao segundo competia lavrar aterra e produzir os bens necessários ao consumo de sua família, retribuindo ao senhor com uma parcela convencionada do fruto do seu trabalho.

Com a explosão demográfica, essa ordem passou a ser insuficiente para responder às necessidades socio-econômicas, dando origem a uma população marginalizável e marginalizada, que passou a buscar fora do sistema as soluções para os seus problemas de sobrevivência. A alternativa encontrada fundou-se basicamente no comércio e, posteriormente, na indústria. Expandiu-se de tal forma que se sobrepôs à velha ordem auto-suficiente, introduzindo alguns temas para a formulação de uma nova convenção social: o lucro, a divisão do trabalho, o direito formal, uma nova concepção de justiça, o capitaJ, e assim por diante.

É claro que mudanças assim tão radicais haveria de influir, como de fato influiram. na esfera do pensamento. A Filosofia, enquanto questionador do homem, superou a visão escolástica da vida humana como vinculada aos designios divinos, num processo que de5en1bocou no cartesianismo e no positivismo. Embutida nesse processo, a ciência deu um grande salto, liberada para o conhcimento empírico e respondendo às exigências da nova ordem econômica. Inspirou-a a crença na capacidade humana de alcançar o conhecimento através de métodos semelhantes aos que propiciavam o crescimento econômico.

Os valores acabaram sofrendo profundas reformulações. Para o feudalismo a lealdade era fundamental; baseava-se no reconhecímento de um direito líquido e certo do senhor sobre sua propriedade, legitímado por sua capacidade de defendê-Ia; o usufruto da propriedade era extensivo a quem nela buscasse repouso e segurança, desde que se submetesse às regras do jogo. Não havia que pensar em lucro, a usura era pecaminosa, não havia produção excedente, amoeda não era fundamental às relações regulares de troca. O poder era inquestionável. Se o senhor conseguia manter o seu feudo e cumprir aparte que lhe cabia no contrato social, não havia por que negar lhe o direito inclusive ao fausto e a um estilo especial de vida subsidiado pelos que lhe deviam a sobrevivência segura. A terra era propriedade do senhor como valor de uso e não como valor de troca, pois não era comercializável. O direito baseava-se nos costumes, a ética e a estética, na religião.

Para a emergente burguesia, nada disso era relevante. A sobrevivência seria garantida pelo lucro obtido nas transações de compra e venda de bens. Acumular era preciso, pois significava a ampliação da faixa de segurança assim como a extensão do potencial de consumo. O sucesso nos negócios propiciaria inclusive o acesso ao que até então era privilégio dos senhores: o luxuoso, o exótico, a especiaria, a honraria, o prazer. A convalidação religiosa acabou vindo com a doutrina calvinista da predestinação, que considerava o sucesso nos negócios como sinal de eleição divina.

Por outro lado, as garantias jurídicas de que a burguesia necessítava só poderiam ser alcançadas se ela mesma detivesse o poder de organizar a sociedade através de leis objetivas, à semelhança do mundo romano, avocando-se inclusive O poder de julgar as pendências entre os cidadãos, retirando-o assim da esfera tradicional do senhor. O direito baseado nos costumes só é viável numa sociedade em que as transformações sejam lentas o suficiente para sedimentar uma tradição. Quando as mudanças são rápidas, os problemas que se colocam são novos e é preciso definir de modo objetivo as regras a serem seguidas.

Foi uma mudança que levou séculos para se delinear e se cristalizar .O que fica entretanto evidente é que o dinheiro e o poder sumiram a liderança de todos os valores, cuja reformulação foi por esses dois parametrada. Um é, inclusive, condição para o outro. Decadente econômicamente, a nobreza foi transigindo e, de concessão em concessão, foi aderindo às proposições burguesas, para poder sobreviver.

Seus privilégios acabaram sendo expropriados pela burguesia, pelo dinheiro e pelo poder. A sisudez das roupas discretas e a parcimônia nos gastos foram-se tornando desnecessárias para a alta burguesia, que acabou comprando os castelos e substituindo a nobreza, tentando inclusive assimilar-lhe hábitos seculares, sem o lastro dos séculos e sem OS valores que os fudamentavam.

"LOCUS NASCENDI"

O Psicodrama surgiu na esteira de uma crise axiológica mundial. Os valores burgueses haviam conduzido a humanidade a uma decepção profunda com os resultados obtidos, simbolizados pela Primeira Guerra Mundial. Os primeiros lamentos proféticos remontam a meados do século XIX, com Nierkegard, que encarnou em sua vida pessoal todas as contradições e perplexidades do sistema vigente e ergueu sua voz, devidamente abafada no seu próprio tempo, para denunciar a angústia de uma existência cujo sentido se perdera. Na virada do século, outras vozes começaram a fazer-se ouvir: Bergson, Dilthey, Nietzche, Husserl, Einstein, Unamuno, Jaspers, Marx, Heidegger, para citar os mais notáveis.

Moreno colocou a questão de uma forma até certo ponto patética. Era necessário sacudir as cadeias das conservas culturais, fundamentar as ações numa radical coerência entre pensamento e vida, resgatar o deus-criador que existe em cada criatura, compreender com clareza os fenômenos da relação dos homens entre si e com os demais elementos do seu meio, com a divindade inclusive, possibilitar a reorganização da sociedade com base em novos valores. O sentido da existência necessitava ser redescoberto não através de abstrações, mas da própria existência. Haveria que quebrar o jugo ideológico da burguesia.

Não se trata de tarefa simples quebrar qualquer jugo ideológico. Conforme assinalei em trabalho anterior (I), a grande força da deologia é que é capaz de absorver os movimentos que a denunciam e de acabar colocando-os ao seu serviço. Seria essa a trajetória do Psicodrama?

O PSICODRAMA NO BRASIL

Tudo indica que sim. Para entender esse quadro vale assinalar alguns aspectos da história. Até os anos 50, a questão da saúde mental no Brasil vivia a tranquilidade mercadológica dos tempos feudais. Por um lado, reinava absoluta a Psiquiatria clássica, firmada a partir dos avanços representados pela figura de Franco da Rocha. Por outro, a Psicanálise, assentada sobre os louros de pioneiros como Durval Marcondes. A primeira fazia a cobertura das enfermidades que atingiam principalmente o nivel terciario, com a precariedade própria do subdesenvolvimento de então. A segunda supria razoavelmente as demandas da elite econômica.

O surto desenvolvimentista do governo Juscelino Kubistscheck mudou a face do Brasil, com a acentuação do êxodo rural e da consequente e correspondente concentração urbana. A classe média foi favorecida com o acesso ao consumo de bens industriais que passaram a ser fabricados no Brasil, elevando de certa forma o seu padrão de vida. Mas o desequilíbrio social comercial a fazer-se sentir, levantando questões candentes tais como a da terra, a da Universidade, a da cultura, a da educação popular, a da saúde e muitas outras voltadas para a penúria das massas. As pressões sociais culminaram com o retrocesso político de 1964. Como a repressão apenas impede as manifestações mas não resolve os problemas, estes continuaram existindo e foram-se agravando cada vez mais, até mesmo em decorrência das medidas paliativas adotadas.

Em termos de assistência à saúde mental, as práticas até então vigentes começaram a ser questionadas. A disponibilidade de mão-de-obra no mercado passou a exigir a ampliação deste. Nesse cmtexto surgiu a necessidade de novas opções para os profissionais "psi", eis que a corporação psicanalística, calçada no modelo feudal, não oferecia opções de formação à massa de "aprendizes" sem poder aquisitivo, como também não dava conta de atender à demanda reprimida.

O Psicodrama acabou vindo como uma dessas novas opções. Não veio como uma proposta revolucionária. Foi descoberto como uma técnica psicoterápica alternativa, para encaixar-se exatamente, dentro do modelo burguês-capitalita que constituía o cenário sócio-político-econômico do final dos anos 60.

Assim, os psicodramatistas acabaram reprisando a história da ascenção da burguesia, ocupando o espaço vazio deixado pela renitente nobreza psicanalítica. E, como na Idade Média, procuraram criar o seu espaço e fortalecer-se, de forma em muito semelhante ao ocorrido séculos atrás. Só que aqui a historia fica mais complicada, porque a Psicanálise representa exatamente o triunfo burguês contra os movimentos renovadores do inicio do século. Surgida na mesma época, seus métodos e objetivos sociais muito pouco diferiram da ciência do século XIX:manteve a preocupação com o homem individual, procurando ajudá-Io a superar os entraves a sua melhor adequação às estruturas vigentes, enquanto abordagem científica apenas inovou como uma variação do modelo epistemológico positivista, se revolucionou com a descoberta do inconsciente e com a revelação da importância da sexualidade na vida humana, fê-lo da mesma forma como os grandes inventores que propiciaram a revolução tecnológica, isto é, sem deixar de estar ao serviço da ordem estabelecida. Sua estrutura corporativista-feudal, em termos de formação de novos profissionais e de defesa dos privilégios dos "mestres", desenvolveu científica e socialmente um trabalho fundado na ideologia burguesa.

O psicodramatista veio, dentro desse quadro, a ser uma forma burguesa de desestabilizar outra forma burguesa. A baixa burguesia contra a alta burguesia. E como esta havia assimilado alguns hábitos da nobreza, a ascenção social exigiu que esses hábitos estivessem diante dos olhos ávidos dos que buscavam o sucesso. É o que veremos, em seguida, ao analisarmos o significado de todo esse processo histórico em termos da teoria psicodramática.

A PRODUÇÃO TEÓRICA

A expansão do Psicodrama exigiu esforços no sentido de ampliar a sua aplicação, de inovar tecnicamente para atender às necessidades dessa ampliação, e de desenvolver 15 precárias bases teóricas oferecidas, em seus primórdios, pelos preceptores estrangeiros. O que diz respeito a formulações técnicas vamos deixar de lado, para enfocar os trabalhos teóricos, onde temos quatro grandes destaques: Alfredo Naffab Neto, Wilson Castelo de Almeida, José S. Fonseca Filho e Içami Tiba, este em parceria com Victor da Silva Dias. NAFFAH, em seu primeiro grande trabalho (6), faz uma releitura de Moreno, a partir de uma perspectiva dialética. É talvez a obra de maior fôlego, em termos de profundidade, compreensão crítica e justiça ao conjunto da obra moreniana. ALMEIDA (2) faz uma tentativa de sistematização teórica, utilizando-se de um referencial fe~omenológico. Centraliza sua pesquisa na questão do método psicodramático, ao contrário de Naffab, que enfatiza o aspecto político-filosófico. O que essas duas obras provocaram, infelizmente, foi nada mais que uma referência respeitosa por parte da comunidade psicodramática, sem chegar a afetar o comportamento profissional, senão de uma parcela numericamente pouco relevante.

Já os trabalhos de FONSECA (4) e de TIBA et al. (7) tiveram um impacto bem maior: definiram as duas principais correntes representadas na segunda mesil-redonda a que me refiro nas considerações introdutórias. A proposta de FONSECA procura estabelecer uma correlação entre a teoria moreniana de matriz de identidade e a fIlosofia dialógica de Martin Buber. Fundamenta sua visão do desenvolvimento da personalidade numa progressão na capacidade de estabelecer vínculos, de tal forma que o indivíduo vem a alcançar no final do processo, a possibilidade de inverter papéis, o que, para ele, corresponde à capacidade de estabelecer uma legítima relação, conforme a acepção buberiana.

O esquema de desenvolvimento que Fonseca apresenta, associado a uma teoria da técnica psicodramática e a um esboço de psicopatologia, conseguiu fascinar, na medida em que ofereceu um modelo de leitura dos eventos psicodramáticos, muito próximo do que representa, tecnicamente, no ambito da Psicanálise, a descrição das fases do desenvolvimento infantil através das zonas erógenas, ou então o tripé defesa-transferência-angústia.

Do ponto de vista epistemológico, encontro nessa proposta alguns aspectos vulneráveis. Com efeito, as formulações fIlosóficas representam uma reflexão sobre o sentido e a natureza dos objeros considerados. Elas participam das proposições científicas apenas de forma indireta, na medida em que fundamentam a elaboração de uma metodologia e que assumem diante desta, como de seus resultados, uma postura crítica. Já as hipóteses e leis científicas apenas procuram descrever os fenômenos estudados e municiar a aventura das previsões. Transformar uma proposição fIlosófica diretamente em teoria psicológica significa esvasiar a Filosofia de seu potencial de questionamento e a ciência de seu crivo.

Por outro lado, BUBER (3) não vincula a relação Eu-Tu à capacidade neuropsíquica de reconhecimento diferencial do eu e do não-eu, que é o cerne da proposição moreniana. Nem tampouco a capacidade de discernir entre pessoas e objetos ou entre fantasia e realidade. A palavra-princípio Eu- Tu define uma forma de presença recíproca entre dois seres, independente da consciência que estes possam ter dessa condição. Assim, o próprio filósofo pontua
a virtualiade de uma relação do homem com uma árvore, com a lua, com uma forma, com o Tu que é eternamente Tu, sem nunca transfortnar-se em Isso.

"No começo é a relação", diz Buber. Daí podermos extrapolar suas considerações para admitir a possibilidade de uma relação Eu- Tu entre a mãe e seu fIlho recém-nascido, mesmo quando este ainda se encontre na fase do primeiro universo da matriz de identidade. O desenvolvimento descrito por FONSECA seria mais propriamente referido ao processo de capacitação do bebê para proferir a palavra-princípio Eu-Isso, fundamento do conhecimento científico e da eventual consciência da re18Çio. De qualquer forma, porém, permaneceria a questão epistemológica, razão pela qual o Eu-Isso enquanto categoria fIlosófica estaria, dentro da teoria psicológica em pauta, descaracterizado.

A contribuição de TIBA e DIAS foi a sistematização da proposta teórica formulada por ROJAS-BERMUDEz, que aprofunda a conceituação com o desenvolvimento neurofisiológico do recémnascido. Como instrumento de diagnóstico e de leitura de um sessão psicodramática, permite uma diferenciação relativamente fina. Sua fertilidade enquanto parâmetro de pesquisa
e de aprofundamento teórico beneficia-se da coerência epistemológica interna, uma vez que é decididamente objetivista e mecanicista. Dentro porém de uma visão mais ampla, apresenta os mesmos riscos da ciência burguesa profligada por Moreno e, por isso mesmo, é extremamente dificil compatibilizá-Ia com o arcabouço teórico da Sociommia.

Vale, inclusive, reafIrmar a questionabilidade do próprio ponto de partida da teoria do núcleo do eu. Os comportamentos compreendidos no conceito de papel psicossomático carecem do parceiro relaciona! indispensável à caracterização da existência de um papel, conforme aponta MEZRER (5) que propõe, em substituição, o conceito de "zona corporal em ação". Tendo em vista as observações acima, o que responderia pelo sucesso que alcançaram entre nós? Talvez seja porque apresentam aquelas respostas exigidas pela "noblesse". O grande prestígio da Psicanálise erigiu-a em referencial de validade a todas as outras propostas psicoterápicas. Como ela se baseia numa particular concepção do desenvolvimento psíquico e, na medida em que a sua prática acabou por transformar-se em modelo, fêz-se necessário que a teoria moreniana oferecesse a sua versão a respeito do assunto. Na verdade, Moreno apenas tangencia a questão, não a retomando e não atribuindo a ela maior relevância no conjunto de sua obra. Ela concentra sua atenção nas pesquisas sobre os desdobramentos dos conceitos básicos de espontaneidade, papel, tele, configurações sociométricas, momento etc. ..São estes
conceitos que orientam a prática psicoterapêutica do Psicodrama.

Mas a grande maioria dos mais influentes psicodramatistas no mundo são egressos das fIleiras psicanalisticas. Nossos pais, Bustos e Rojas-Bermúdez como eles, Ancelin-Schutzenberger, Pavlovski, Pierre Bour, Sachs, Lemoine e tantos outros que, afinal, constataram as limitações da Psicanálise e aportaram no espaço psicodramático com toda uma bagagem de experiência e conhecimentos prévios, que não deviam, nem podiam, é lógico, jogar fora. E que utilizaram como subsídios para a formulação de suas técnicas pessoais e de suas particulares reflexões teóricas, Esse processo de aculruração do Psicodrama não poderia, evidentemente, ocorrer sem as acomodações que são tipicas dos fenômenos ligados à incorporação de uma culrura por outra. São um exemplo claro desse processo as corporações religiosas que conseguem desenvolver um sincretismo capaz de misturar catolicismo com espiritismo e com os cultos africanos. E só assim conseguem viver uma religiosidade ao mesmo tempo monoteísta, politeísta e panteísta.

O projeto científico moreniano tem raízes na denúncia da ciência, da arte, da filosofia e da religião calcadas na ideologia burguesa. A Psicanálise já é tipicamente uma ciência cujos fundamentos se alinham com o pensamento burgues. Enquanto prática, flrma-se como privilégio tanto do analista quanto do analisando. Os movimentos que buscam popularizá-la guardam semelhança com o sistema brasileiro de previdência social, no que respeita à assistência médica: em vez de romper com o modelo clássico, assume que os menos bem-sucedidos na vida até podem ser beneficiados, porém com algo de qualidade inferior. Em termos de Psicanálise -e, dentro do que estamos considerando, também no Psicodrama os profissionais sujeitam-se a atender, provisoriamente, os mais pobres, até que ganhem suficiente experiência e prestígio para então passarem a atender os que podem pagar mais.

Como teoria e prática são indissociáveis, uma prática ideologicamente comprometida acaba por acionar uma reflexão com as mesmas caracteristicas; as novas formulações viabilizam uma prática cada vez mais alienada, fechando-se, destarte, o círculo. Nesse momento, os psicodramatistas jogam fora toda aparte mais substanciosa da obra do criador do Psicodrama, transformam em espinha dorsal do seu trabalho o que era apenas um detalhe, e acabam
praticando uma espécie de psicanálise de segunda categoria. E depois se queixam de que o Psicodrania tem bases teóricas tão precárias que precisa, para se sustentar, ser enxertado com outras técnicas e outras teorias.

Triste fim para o grito anti-burguês de Moreno, que não temeu, ao seu tempo, ser "interpretado" pelo modismo psicanalístico de então, a serviço do "status quo", que incriminava de neuróticos todos os jovens revolucionários!

Jornada Interna do Instituto de
Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de
Campinas, em 15 de setembro de 1984.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS

1. AGUIAR NETTO, M.C. -Psicodramae Rernatrização Ideológica -in Revista da FEBRAP, ano 7, no I, 10 vol. -1984.
2. ALMEIDA, W.C. -Psicoterapia Aberta -Ágora, S. Paulo, 1982.
3. BUBER, M. -Eu e Tu -Cortez & Moraes, S. Paulo- 1979.
4. FONSECA FILHO, J.S. -Psicodrama da loucura -Ágora, S. Paulo- 1980,
5. MEZRER, A. -Um questionarnento da validade do conceito de papel psicossomático. In Revista da FEBRAP, am 3, nO I, -1980.
6. NAFFAR NETO, A. -Psicodrama -Descolonizando o Imaginário -Brasiliense, São Paulo -1979.
7. TIBA, I. e V .C.S. Dias -O Núcleo do Eu -Separata.


Índice



Os Escritos Psicodramáticos

I - INTRODUÇÃO

O objetivo desse trabalho é, fundamentalmente, abrir discussão sobre a produção escrita em Psicodrama. Meu interesse pelo assunto já vem de algum tempo e não me é clara a
razão do porque se escreve tão pouco.

Em termos de publicação de livros em Psicodrama no Brasil, temos que nos contentar com 3 ou 4 por ano, quando muito. Algumas obras de Moreno continuam sem tradução em língua portuguesa. Não pretendo neste trabalho discutir o aspecto quantitativo da produção, mas sim a qualidade do material apresentado no último Congresso.

Com esse intuito fiz urna leitura crítica de 74 trabalhos que compõem os Anais do IV Congresso Brasileiro de Psicodrama. O apresentado reflete, de alguma forma, a realidade psicodramática no Brasil, no que diz respeito à nossa capacidade de teorizar. Não encontramos nestes Anais trabalhos de muitos psicodramatistas. Os artigos, entretanto, foram gerados em instituições de Psicodrama e o que está contido nos 4 volumes é de responsabilidade de toda a comunidade psicodramática brasileira.

Devo explicar a razão de minha inquietação: ela é em primeiro lugar de ordem ideológica. Coloco as questões que me motivam a escrever sobre o assunto: o que estamos fazendo com o
Psicodrama ? Os escritos apenas registram a ação ou fazem crítica da ação sob a ótica moreniana? Até que ponto estamos promovendo a desacomodação e a revolução que perpassa a proposta moreniana ?

II - UMA CLASSIFICAÇÃO

Os trabalhos podem ser, a grosso modo, classificados em 4 grandes grupos:
Em primeiro lugar temos os relatos de vivência (em clínica ou fora dela), sem qualquer preocupação com o processamento técnico ou teórico, ou Binda, qualquer crítica da realida-
de... Apenas registra-se uma vivência em que foram utilizadas técnicas psicodramáticas.
No segundo grupo temos relatos de vivência em psicoterapia ou não, mas enfatizando um processamento sob referencial teórico da Matriz de Identidade (Fonseca) ou Núcleo do Eu (Bermudez).

Às vezes, processa-se com o uso de ambas as teorías. Compreendo este trabalho como um exercício (no sentido de melhor entendimento das referidas teorias ? da vivência ?) em que
o psicodramatista vai "fatiando" o mterial, conforme a visão dos autores. Neste grupo existe um esforço, em certos artigos, de se passar um modelo de trabalho, sendo o autor, ao que tudo indica, alguém com o papel profissional mais desenvolvidos. No terceiro grupo a ênfase é
colocada no aspecto teóríco, mas a partir de situações vivenciadas, principalmente em clínica. O
psicodramatista, na maioria dos casos, parece ter vivenciado muitas situações e a partir da experiência consegue detectar aspectos que aparecem repetidas vezes. Desta forma abstrai
da realiade questões teóricas relevantes ou não.

No último grupo temos artigos teóricos:
a) aparecem trabalhos em que se faz um levantamento bibliográfico de idéias ou conceitos espalhados pela obra de Moreno (ou outro teórico de alguma forma ligada ao psicodrama).
b) um outro caminho tomado por estes teóricos seria a comparação ou a correlação da teroria moreniana com outra teoria ou pensamento filosófico.
c) a preocupação neste outro sub-grupo é com a discusão e aprofundamento de determinado conceito.
d) enconramos artigos em que o autor se preocupa com um embasamento filosófico da teoria moreniana.
e) finalmente observamos trabalhos voltados para a discussão de questões ideológicas que permeiam a prática do Psicodrama. São abordagens abertamente criticas questionando o Poder .

III - A ANÁLISE

Não é uma prática rotineira o registro, a teorização e a publicação de trabalhos dentro do Psicodrama. A prioridade que se dá a ação parece colocar toda a atIvidade de teorização
na lata do lixo da conserva cultural.

Com isso a ação passa a ter o perigoso efeito de um trem sem locomotiva, que corre, mas descontroladamente. Penso ser fundamental termos claros nossas conservas.
Erroneamente desprezamos a conserva, mas ela parece ser essencial para que possamos romper com o "ver lho", este produto do esforço criativo. Ou seja, é preciso de referencial para haver crescimento, delimitar exatamente o já-criado.

Passemos, então, a análise dos trabalhos publicados. Os relatos de vivência dizem respeito a atividades desenvolvidas em clínicas de psicoterapia. Nota-se, todavia, o esforço do psicodramatista em se utilizar da técnica para além do âmbito restrito da atividade psicoterapica: na escola, na creche, na periferia e nas empresas (repetidos trabalhos). Algumas vezes especializando uma clientela distinta: idosos, tuberculosos, excepcionais, gestantes, prostitutas, psicóticos, mães... Haveria aí uma tentativa de recuperação do espírito moreniano? Parece que sim e romper com o trabalho para uma minoria levando a uma população mais ampla, possibilidade de compreensão da realiade é louvável. Alguns destes trabalhos "alternativos", no entanto, insistem em uma ação sem reflexão (ou pelo menos a reflexão não aparece nos
trabalhos).

Nestes trabalhos de relato raramente é problematizado a questão do poder institucional. Ou seja, como liberar a espontaneidade sem discutir a ideologia do sistema, a política de dominação infIltrada em cada espaço, a começar pelo da psicoterapia? Uma ação acrítica e espontaneista, sem a devida vigilância teórica-epistemológica leva nossa atuação exatamente para onde o
dominador deseja: a normatização.

Não se tem dúvida de que não existe intervenção neutra: todo posicionamento e principalmente a técnica utiliada irrefletidamente, sem uma teoria que a sustente, corre o risco de manipulação para e simples. A ideologia dominante se apodera do pouco individuado e do vago qe forma
invisível, mas violenta. Uma teoriacrítica e inflexiva permite o constante questionamento político ideológico da ação.

Penso ser necessário ao fazermos um relato de vivência tentar levantar hipóteses, lançando bases para alguma futura proposta teórica. Do contrário, não vislumbro possibilidade de crescimento do Psicodrama, a não ser um amontoado de belos relatos, mas desarticulados.
Em alguns trabalhos o aspecto a que me referi anteriormente chega a ser preocupante: a técnica utiliadasem levar realmente em conta a visão moreniana de mundo. Em muitos relatos declara-se que a atividade foi "produtiva", "as relações interpessoais estão melhores", "as
pessoas gostaram da experiência".

Mas e daí A que leva essa mudança a nível mais amplo? As pessoas estariam mais espontâneas, inclusive para qustionar o poder? Ou a idéia é "sejam espontâneas, mas não duvidem da
ordem"? A espontaneidade, apenas para falar em um conceito importante em Moreno, não se traduz em algo passivo, alienado, individualista.

A crítica a alguns destes relatos não quer dizer absolutamente que não seja um caminho, nem quero dizer que os trabalhos teóricos sejam contribuições importantes. A crítica diz respeito muito mais a trabalhos que se distanciam da proposta moreniana, ou repetem apenas e tão somente algumas idéias, ou ainda são absolutamente alienados em relação a realidade.

A teoria do Psicodrama é, apenas timidamente, criticada. Por que? Os conceitos de Moreno não
estão claros e daí fica difícil criar , criticar, destruir até... ? É notória a insatisfação dos psicodramatistas para com a teoria moreniana. Por que? Ela seria realmente inconsistente?

Instrumentalizaria o psicodramatista em sua atividade? Por que precisamos recorrer com frequência a outras linhas ? Muitos dos autores falam frequentemente da teoria com reticências, justificando esta posição com a dificuldade em se ler Moreno, reclamando dos conceitos pouco
claros. Seria essa constante estranheza com a própria teoria, como se sempre estivesse pisando em chão desconhecido, que produziria trabalhos repetidos, nos quais se reproduz a exaustão os mesmos conceitos, as mesmas idéias, o mesmo "processamento"? Na verdade, talvez, alguns destes trabalhos sejam exemplos de uma "má conserva cultural".

A utilização da proposta moreniana para compretinsão da nossa realidade acontece em raríssimos momentos. Em meu entendimento essa seria uma tarefa importante. Exemplificando: como compreender a sexualiade a partir do conceito de espontaneidade de criatividade,
levando-se em conta nosso sistema capitalita, voltado para o consumo? Será que o psicodramatista reflete sobre essa qustão no contato com o cliente? Algo permissivo? Sutilmente
repressivo? Critico? Será que apenas dominar a técnica (o que já não é pouco) resolve o problema, deixando acontecer? (a idéia é de que no decorrer das cenas uma resposta
surge). A escolha da técnica (específica) já não seria um direcionamento conforme a ideologia do terapeuta? Continuando contrapondo o conceito de espontaneidade à compreensao que estamos fazendo dos trabalhos, podemos perceber no trecho de Moreno transcrito abaixo, sua abrangência: A espontaneiade e sua liberação atuam em todos os planos das relações humanas, quer seja comer, ter relações sexuais, ou relacionar-se socialmente; Manifestam-se na
criação artística, na vida religiosa e no ascetismo' , (Fundamentos de La Sociometria).

A espontaneidade como proposto por Moreno é um conceito demais incõmodo, que nos obriga a um constante re-pensar, inclusive a maneira de se escrever trabalhos científicos. De forma geral temas um quadro preocupante. Como agir: "fazer vistas grossas para não ser chato e ficar feliz com alguns excelentes trabalhos publicados ? Creio que a saída é um compromisso com o destino do Psicodrama, buscando o entendimento das razões de termos uma produção teóri-
ca pequena e pouco criativa.

Quais seriam estas razões?

Haveria "ós" na teoria de Moreno ainda não desatados?

Precisaríamos como parecem, implicitamente, sugerir alguns nos ater apenas a um perfeito dominio da técnica?

A dificuldade na teorização seria fruto de um tempo de crise? Por razões meramente financeira a ditadura econõmica nos obriga a uma ação desenfreada e jamais, ou muito pouco, a ..perda de tempo" com a reflexão? A técnica, neste caso, não teria um fim mecanicista e utilitário apenas?

Haveria uma descrença na teoria confundida simplesmente com abstração, de tanto ouvir os vazios discursos das "elites pensantes"?

O Psicodrama suportaria a redução de uma ciência positivista? não estaríamos nos debatendo por aí?

Viveríamos uma enorme contradição: os psicodramatistas seriam pouco criativos e espontâneos?

O ensino do Psicodrama, como criticado por Perazzo questionando a montagem de currículo, na verdade uma colcha de retalhos, de cores e texturas escolhidas, segundo ele, arbitrariamente? O que estão aprendendo os alunos? O que estãó ensinando os professores?

Ou o quê...?

IV- CONCLUSÃO

A teona tem sua matrifna ação. A prática, nesse sentido, precisa ser , compreendida e conservada, para se transformar novamente em ação. O revolucionário está nesta dialética, na
busca constante de uma abertura. É preciso, pois, encontrar um caminho ou muitos caminhos: não podemos destruir a essência do Psicodrama -a espontaneidade e a criatividade, ou já não teremos a loucura moreniana. As boas conservas culturais precisam existir caso tenhamos a intenção de sobreviver. Não é fácil a tarefa de criticar. Criticar é exercer um certo poder.
Quando se tenta fazer isso de forma radical (no sentido de buscar as raízes)é algo demais incômodo. A crítica, porém, parece ser fundamental para o crescimento do Psicodrama. A
modesta contribuição deste trabalho visa possibilitar o retomo à comunida- de psicodramática como foi percebida nossa produção por um psicodramatista. Seria interessante que outras pessoas criticassem a produção sob novos enfoques ou mesmo contestassem minha posição.
Parece importante também aprofundar as causas históricas que inibem uma produção mais criativa. Essa tarefa fica para um outro momento.

Campinas, setembro/85
DEVANIR MERENGUE
IPPGC

 

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Brasil, quarta, 20/08/2008


Última atualização: 13/08/2008


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