Buscar:

Login:
Senha:
Esqueceu sua senha?
Volta para home
Clique para saber mais
Curso: Psicodrama em Treinamento e Desenvolvimento – T&D POTENCIAR - São Paulo        Curso: Coaching com Psicodrama POTENCIAR - São Paulo        Curso: Curso de introdução ao Psicodrama ABPS - São Paulo        Curso: Trabalhando com grupos - Curso de Expansão DPSedes - São Paulo        Curso: Psicodrama: primeiras lições - Curso de Expansão DPSedes - São Paulo        Curso: Curso de Formação em Psicodrama ABPS - São Paulo        Curso: Cursos de Formação e Educação Continuada em Psicodrama DPSedes - São Paulo        Curso: Trabalho de Grupos com Gestantes 2008        Curso: Especialização em Psicodrama DELPHOS - Rio de Janeiro        Curso: Curso de formação do Psicodramatista Didata - Nível II SOPSP - São Paulo        Curso: Curso de formação do Psicodramatista Didata Supervisor - Nível III SOPSP - São Paulo        Curso: Curso de formação em Psicodrama - Sociedade de Psicodrama de São Paulo / PUC SOPSP - São Paulo        Evento: Workshop - Terapia familiar ABPS - São Paulo        Evento: 21ª. JORNADA DA ABPS ABPS - São Paulo        Evento: PROGRAMAÇÃO DO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO        
   


A Revista Brasileira de Psicodrama teve modificações em sua equipe: a incorporação de Rosilda Antônio no cargo de secretária administrativa. A edição permanece a cargo de Wilson Castello de Almeira. Na diretoria de publicação está Murillo Viotti sendo co-editores Márcia Pereira Barreto e Altivir João Volpe. No conselho editorial estão Luiz Henrique Borges, Marilene Della Giostina, Paulo Bareicha, Paulo Sérgio Amado dos Santos e Wilma Silveira Bueno.ASSINATURANão deixe para depois. Faça já sua assinatura e receba seus exemplares no local de sua preferância.Informações na FEBRAP Tels: (11) 3673-3674 ou 3873-3467 - E-mail: info@febrap.org.br

Outras Edições




Dito e Feito - Psicodrama para o século XXI

Heloísa Junqueira Fleury*

A história recente do movimento psicodramático brasileiro indica uma inserção expressiva do psicodrama nas intervenções psicosociais. As experiências têm demonstrado o potencial da metodologia nas análises das situações vividas e no levantamento de soluções viáveis para situações pesquisadas.Ao iniciarmos 2001, o evento "Psicodrama da Ética e Cidadania" congregou psicodramatistas, em sua maioria paulistanos, favorecendo o reconhecimento de nossa identidade neste início do milênio: estamos nas ruas, nas escolas, nos consultórios, nas organizações, nas instituições, nas comunidades e demais contextos onde a ação psicodramática encontra seu momento de transformação, expandindo os recursos disponíveis dos grupos e de cada ser humano presente.Realizado na cidade de São Paulo, dia 21 de março, foi um marco histórico desta nova tendência. A sistematização do material produzido pelas 180 equipes que trabalharam com os mais variados segmentos da sociedade paulistana, possibilitará vários recortes para análise como também subsídios para o reconhecimento das múltiplas tendências teórico-práticas do psicodrama brasileiro da atualidade. Não só cidadãos e servidores recobram potência mas também os psicodramatistas, nas equipes de trabalho ou à distância apoiando os colegas, resgatam a esperança de novas possibilidades de ações transformadoras. A FEBRAP - Federação Brasileira de Psicodrama - ao identificar a ressonância atual do psicodrama, amplia tendências, identifica e apoia oportunidades de inserção desta metodologia na pesquisa e intervenção de temas sociais, divulga e propicia o seu desenvolvimento, realiza encontros regionais, para reflexão sobre a formação do psicodramatista e promove o congresso brasileiro, espaço maior de troca da imensa diversidade de nosso país.O debate-FEBRAP, uma lista de discussão pela Internet, tem se caracterizado como um espaço de trocas e apresentação de experiências, algumas pioneiras, testemunhando a diversidade da aplicabilidade do psicodrama.A FEBRAP reconhece-se como um espaço de teoria e prática do psicodrama brasileiro através do envolvimento sempre maior dos psicodramatistas que atuam como representantes nas regionais, que participam de comissões e departamentos, daqueles que trocam seus conhecimentos nos cursos e vivências, dos profissionais envolvidos com a formação de psicodramatistas.A FEBRAP cumpre seu papel na construção da história do psicodrama brasileiro. Nestes 25 anos de existência, testemunhou a contribuição dos que formaram as novas gerações de psicodramatistas. E continuará construindo a história da atualidade com seus novos referenciais de um psicodrama pronto a atender aos desafios que a realidade vem continuamente impondo à nossa sociedade.

*Presidente da FEBRAP

Índice


Agende os próximos eventos

A participação dos pioneiros no Psicodrama Público

Contribuições de outras cidades

Encontros

Os representantes regionais estão organizando e planejando o VII Encontro de Professores e Supervisores, o VI Encontro de Coordenadores de Ensino e o II Encontro de Psicodramatistas em Formação. Estes eventos acontecerão entre os dias 25 e 27 de outubro deste ano, durante os encontros das cinco regionais: Centro-Oeste, Norte-Nordeste, Sudeste, Sul e São Paulo.Nosso objetivo é divulgar, trocar, fortalecer o ensino da teoria e prática do método socio-psicodramático das federadas, mapear as configurações regionais e saber como está a aplicabilidade do psicodrama nas áreas de saúde pública e privada, social, educacional e organizacional.

Madalena Rehder
Diretora de Ensino e Ciência

Congresso Brasileiro

O XIII Congresso Brasileiro de Psicodrama acontecerá de 29 de maio a 1º de junho de 2002, no Hotel Sofitel Costa do Sauípe, na Bahia, e terá como tema central "Raízes, Transformações, Perspectivas."Desejamos criar um ambiente relacional onde possamos aprofundar conceitual e metodologicamente sub-temas do psicodrama que desenvolvemos no Brasil - do Monte Caburaí (antigo Oiapoque) no Norte, ao arroio Chuí, no Sul; da Ponta de Seixas no Leste, à Serra da Cantamana, no Oeste.A comissão científica está organizando atividades diversas como aulas, temas em debate, escritos psicodramáticos, atos socio-psicodramáticos, a prática da discussão, mesas redondas, posters e outras. Logo vocês estarão recebendo o primeiro cartão do congresso.Esperamos recebe-los com o calor e a alegria que caracterizam nossos congressos. Até Breve.

Waldeck D' Almeida
Presidente do Congresso

Índice


Organização - Descendo do Palco

Marisa Greeb*

"O conceito sociométrico de mudança social tem quatro referências principais: o potencial espontâneo-criativo do grupo, as partes da matriz sociométrica relevantes a sua dinâmica, o sistema de valores que a mesma tenta superar e abandonar e o sistema de valores que pretende trazer à realização. Neste sentido, já pode ser observada mudança social genuína, em pequenos grupos ... ele revolve o grupo de dentro para fora. Produz revolução social em escala microscópica ... Para modificar o mundo social, precisamos planejar experimentos sociais de forma a que produzam mudança. Para que estas sejam produzidas, as próprias pessoas têm que estar incluídas ... e o evento tem que ter raízes na espontaneidade produtiva da população... A próxima revolução será do tipo 'sociométrico'... Trabalhadores sociodramáticos têm a tarefa de organizar encontros preventivos, didáticos e de reconstrução na comunidade em que vivem e trabalham; organizar, quando necessário, tais encontros para áreas problemáticas onde quer que existam; ingressar em comunidades confrontadas com problemas sociais emergentes ou crônicos; participar de encontros de massa como greves, revoltas raciais, comícios de partidos políticos etc. e entrar, intervir e clarificar a situação de imediato", diz Moreno no livro "Quem sobreviverá?" Fico feliz com vocês porque juntos pudemos realizar algo que Moreno propôs e que estava no nosso desejo. Foi um ato surpreendente para todos e a surpresa é constituinte da ação espontânea. Foi uma ação disrruptiva porque rompeu modos conservadores de tratar a cidade. Foi uma ação revolucionária porque nos 153 pontos de São Paulo foi semeado, ao mesmo tempo, o desejo de ações cidadãs. Foi uma ação feliz porque gerou alegria, vontade de viver e ampliou a potência criativa. Foi uma ação terapêutica porque levou à busca da superação das forças ressentidas da vítima e ao resgate das forças ativas e criativas. E ainda, foi uma ação disparadora de novos fluxos porque um movimento foi iniciado.Com essas ações podemos responder a problematização que nos fez Marilena Chauí no posfácio do livro "Psicodrama - Descolonizando o Imaginário", de Alfredo Naffah Neto, onde ela diz: "Se a função terapêutica do psicodrama tem sentido, este consiste em abrir a porta para fora do recinto do consultório, em colocar uma escada para que se possa descer do palco e viver o drama dos homens na companhia deles. Toda questão consiste em saber se o psicodrama e sobretudo o sociodrama são capazes de tal ação". Não só abrimos as portas, mas abrimos as portas juntas na cidade para, ainda como Marilena, "resgatar para cada um e para todos a origem de nossa loucura, nosso desejo de justiça e nossa aspiração à liberdade".O meu desejo é, junto com vocês, aprofundar essa reflexão. Algumas coisas já foram escritas sobre a existência de uma cidade subjetiva, mas sem um método para abordá-la. E esse nós temos...

* Educadora, psicodramatista, coordenadora do Role Playing, organizadora do "Psicodrama da Ética e da Cidadania".

Índice


Expediente

Federação Brasileira de Psicodrama - FEBRAP - Rua Cardoso de Almeida, 60, Cj. 134 - Perdizes - CEP: 05013-000 - São Paulo/SP - Fone/Fax (11) 3673-3674 - E-mail: info@febrap.org.br - Site: www.febrap.org.br - Diretoria Executiva - Presidente: Heloísa Junqueira Fleury; Diretoria de Ensino e Ciência: Madalena Cabral Rehder; Diretoria de Eventos Culturais: Waldeck D'Álmeida; Diretoria de Divulgação e Comunicação: Carlos Alberto Souza Borba; Diretoria de Administração e Finanças: Terezinha Tomé Baptista; Suplentes: Edite Xavier e Dulcinea Cassis.Jornal Em Cena - Psicodrama: Ano 18 - n.º 1 - Janeiro/Julho de 2001 - Informativo da Federação Brasileira de Psicodrama - FEBRAP - Jornalista Responsável: Patrícia Espírito Santo (Reg. Prof. 4.274/MG) - Projeto Gráfico e Diagramação: Cláudia Andrade Tartaglia (Reg. Prof. 3.511/MG) - Fotolito: TCS - Impressão: ART COLOR Ltda - Tiragem: 6.500 mil exemplares. Distribuição gratuita. Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do jornal.

Índice


Relembrar e avaliar

Carlos Borba*

Com esta edição do Jornal Em Cena estamos iniciando as comemorações dos 25 anos de criação da FEBRAP fazendo contato com o trabalho de diversos colegas que dirigiram atos axiodramáticos no "Psicodrama Público da Ética e Cidadania" realizado pela Prefeitura de São Paulo, dia 21 de março, em diversos pontos da cidade.Vamos poder lembrar como o psicodrama, criado por Moreno, possui em sua essência o TEATRO e nasceu público em praças, salas e instituições. Foi assim que chegou a São Paulo, em 1967, através de um psicodrama público dirigido por Roja Bernardes.Não demorou para conquistar muita gente. No 5º Congresso Internacional de Psicodrama, que aconteceu em 1970 em São Paulo, o Museu de Arte de São Paulo - MASP teve que se "multiplicar" em vários para abrigar os mais de 3 mil participantes do evento.Na década de 70, "graças" à ditadura militar, o psicodrama brasileiro permaneceu muito ativo, porém dentro dos consultórios e das escolas. Mas já no fim do estado de exceção (exclusão), no início dos anos 80, não mais se conteve e começou a tramar estratégias de sair a busca do público. Assim, ocorreram aquecimentos de muitos psicodramatistas, eventos diversos que agora podemos relembrar através dos relatos deles próprios a convite do conselho editorial deste jornal.Os critérios de escolha dos profissionais que nos contam aqui suas experiências foi, principalmente, a importância do trabalho de algum dos pioneiros em psicodrama público e institucional, abrindo espaço para os que agora ganham as ruas, as praças e a simpatia pública. Preocupamo-nos em dar através do Jornal, uma visão do ontem e do hoje, sempre se integrando e acrescentando. Relatam também suas experiências, psicodramatistas de outros municípios brasileiros e colegas que levaram a idéia a outros estados.O convite a Alícia Romaña é uma homenagem , uma vez que o trabalho realizado no "Psicodrama da Ética e da Cidadania" teve seu eixo em uma vertente educacional, do qual ela é pioneira. Não poderíamos deixar de destacar Marisa Greeb pelo fato de ter ficado sob sua responsabilidade a organização do evento, além do fato de ser ela uma das pioneiras do psicodrama pedagógico no Brasil.Um grande abraço para todos.

*Diretor de Comunicação e Divulgação

Índice

Passado e presente

Ana Maria Zampieri*

Na Revista da FEBRAP, Ano 7 - nº4-1984, há um artigo escrito e apresentado por mim no IV Congresso Brasileiro de Psicodrama de Águas de Lindóia, intitulado: "A realização de psicodramas públicos na Grande São Paulo" onde relato os psicodramas públicos que fizemos durante cinco anos, nos teatros Aplicado e Ruth Escobar.O primeiro aconteceu dia 21 de novembro de 1983 para 180 pessoas e o tema foi o resgate da vida afetivo-sexual de mulheres divorciadas. E assim, por cinco anos consecutivos, uma equipe da qual fizemos parte eu, Paulo Zampieri, Alfredo Soeiro, Luís Russo e Dora Cliquet, trabalhou com os mais diversos temas de protagonistas do cotidiano paulistano, todas as segundas-feiras do mês. As pessoas pagavam ingressos de cinema e ali realizávamos terapias públicas valorosas. Ali também foi um locus de aprendizagem para o psicodrama público, sem dúvida. Desde 1986 passamos eu, José Paulo Fonseca e Marisa Barradas a desenvolver os chamados "Sociodramas da Aids" em diversos lugares e para muitos públicos do Brasil. Cem destes sociodramas (num total de seis mil e oitocentas pessoas) foram selecionados para uma análise da eficácia da metodologia sociodramática na prevenção da Aids em uma tese de mestrado defendida em 1995 na Psicologia Clínica da PUC/SP. A tese resultou no livro "Sociodrama Construtivista da AIDS" (Editora Psy, 1996). Esse sociodrama foi apresentado na XIII Conferência Mundial da AIDS, na África do Sul, Durban, em julho de 2000, e em Congressos de Prevenção da Aids e Sexualidade, em Quito, Ciudad de México, Arequipa e Cusco (no Peru), Buenos Aires, Caracas e Bogotá. Temos, há dois anos, realizado mensalmente na sede da F&Z, sociodramas tematizados para casais, quando pretendemos desenvolver espaços para a discussão de relacionamentos conjugais e familiares. Desde 1996, temos desenvolvido também sociodramas de direitos humanos, ética, violência, abusos sexuais intra-familiares para grupos de adolescentes, crianças e famílias da Associação Meninos do Morumbi. Há, também, uma nova tese de doutorado, no prelo, a ser defendida, este ano, na PUC/SP, onde apresento o sociodrama público para casais, em número de quatro seqüenciais, desenvolvido em empresas de vários estados do Brasil, para desenvolvimento da qualidade da sexualidade conjugal e prevenção da Aids no casamento heterossexual. O psicodrama e o sociodrama público têm sido metodologias de trabalho com grupos diversos nestes anos todos e uma proposta de trabalho clínico e educativo na comunidade, legitimado por avaliações do nosso mundo acadêmico e como uma proposta de pesquisa qualitativa considerada pós moderna. No psicodrama público do último dia 21 de março, ficamos na Praça da Paz, no Ibirapuera, onde foram realizadas dez cenas. O tema que mais mobilizou foi a formação de uma Comissão de Ética, para decidir a punição de policiais assassinos e estupradores. Houve um play back, com a cena de um homem que teve a irmã estuprada por um policial. Depois de um grande impasse, entre a pena de morte e a reeducação, optou-se pela segunda. Havia policiais nesta comissão.Outras cenas trabalhadas foram a de mães que deixam filhos a sós para trabalhar fora, os abusos diversos e acidentes domésticos que estas crianças sofrem. Um grupo de cidadãos construiu novas possibilidades de creches (liderados por garis da praça). Reencenou-se a rebelião da Febem e montou-se uma comissão para redirecionar menores infratores com a presença do Mário Covas, da Suplicy e do Fernando Henrique. Outra cena mostrou a violência doméstica articulada ao alcoolismo e ao desemprego. Isto gerou outras cenas ligadas a injustiça de gênero contra mulheres. Eu tinha uma equipe de 15 egos-auxiliares, colegas psicodramatistas da F&Z e de alunas de Psicologia da PUC e da São Marcos, o que foi essencial para o trabalho. Enquanto eu dirigia uma cena, outra entrava em seguida já aquecida por outros co-diretores. O pessoal da filmagem e do som participou ativamente trazendo, inclusive, personagens. No final, fizemos um grande jogral apresentado pelos egos-auxiliares a partir de frases chaves trazidas durante todo o psicodrama e a platéia participou fazendo o eco do jogral. O público foi heterogêneo, porém, predominaram pessoas mais elitizadas que freqüentam o parque nessa hora. Muitos psicanalistas se apresentaram e colaboraram. Enfim, foi uma experiência e tanto.

* Psicóloga, psicodramatista com especialização em sexualidade, Aids, família e casal, integrante da F&Z

Índice


De lá para cá muita água rolou

Era dia 18 de maio de 1990. Ronaldo Pamplona, Carlos Borba, Irene Stefânia, Vânia Crelier e eu, a convite da Secretaria Municipal de Saúde, realizamos, na Praça da Sé, marco zero da cidade de São Paulo, o teatro espontâneo "A Luta Antimanicomial". Trabalho pioneiro ao qual nos lançamos por acreditar que ir à comunidade e não esperar que ela venha até nós, foi um legado Moreniano e mantê-lo vivo, nosso objetivo.Um palco colocado aos pés da escadaria da catedral era nosso cenário. A platéia, o povo. Uma psicótica (Irene) sai correndo e mistura-se no meio das pessoas que estavam sentadas na escadaria, fugindo da mãe (Vânia) que queria interná-la no sanatório. Às 18h, enquanto "compartilhávamos" nossas emoções, os sinos da catedral tocavam. Era a hora da Ave Maria!Neste primeiro trabalho na rua sinto que se confirmou em mim uma crença inabalável que permanece até hoje: o teatro espontâneo junto ao povo a serviço de questões sociais tais como violência, desemprego, cidadania etc.Destacamos, entre outros, os seguintes teatros espontâneos: "Trabalho, Suor e Salário", 06/08/89, no Ginásio de Esportes, Curitiba, PR; "O Assassinato de Chico Mendes", 12/12/90, na Praça da Sé, SP; "A Luta Antimanicomial", 18/05/91, na Avenida São João, SP; "Brasil, onde está você?", 24/11/91, no Parque do Ibirapuera; "A Luta Antimanicomial", 18/05/92, na Praça da Sé, SP; "Terceira Idade e Ambientalismo", 1992, na V Feira de Arte de Vila Pompéia, SP; "Luta Contra a Aids", 17/12/92, no Espaço aberto da Caixa Econômica Federal da Avenida Paulista, SP; "Sim à Paz, não ao Pas", 1995, na Praça Ramos de Azevedo, SP; "A Luta Antimanicomial", 18/05/99, na Praça Ramos de Azevedo, SP; "A Violência Contra a Mulher", 18/03/99, na Praça Ramos de Azevedo, SP e "A Luta Antimanicomial", 18/05/2000, na Praça Ramos de Azevedo, SP. A partir daí e há alguns anos, desde 1995, com o nome de Grupo Extramuros de Teatro Espontâneo, já realizamos inúmeros trabalhos em praças e ruas de São Paulo.Carlos Borba e Irene me acompanham até hoje e outros colegas uniram-se a nós. No dia 21 de março estavam comigo Annita Malufe, Lúcio Guilherme Ferracini, Irene Stefânia e Miriam Leirias. Carlos estava com Ronaldo e Vânia em outro espaço. Confesso que me sinto orgulhosa de ter sido pioneira neste movimento que agora parece ter mais adeptos. No mesmo dia 21, outras praças e ruas foram "tomadas" por psicodramatistas. Tenho vontade de gritar: Que bom! Não é mais um sonho que sonho só!

*Psicóloga, psicodramatista, integrante da SOPSP

Índice



Estratégias do futuro

Moysés Aguiar*

Na busca de uma melhor compreensão do psicodrama, levantei, na década de 80, a hipótese de que o conhecimento do teatro poderia esclarecer muitas dúvidas, levantar outras tantas, permitir um importante incremento do nosso trabalho. Na ocasião, ouviam-se a boca pequena duas coisas: primeiro, que faltava ao psicodrama uma sustentação teórica mais bem fundamentada, o que justificaria a utilização de referenciais teóricos "importados" para suprir essa lacuna; segundo, que, embora utilizasse dramatizações, o psicodrama nada tinha a ver com o teatro: "teatro é uma coisa, psicodrama é outra".Tais afirmações me causavam desconforto, sabendo a leviandade e o superficialismo. Pensava com meus botões: se a teoria é uma reflexão sobre a prática e, como decorrência, fornece a esta seus parâmetros (eu me vejo no espelho e me arrumo orientado por essa imagem), qual é o sentido de eu lançar mão da reflexão sobre uma outra prática, distinta da minha, para fundamentar minha atuação? Mas sentia que precisava de mais subsídios. Daí a idéia de mergulhar um pouco mais no teatro, levando em conta que foi a partir dele que chegamos aonde chegamos.Consegui aglutinar algumas pessoas que partilhavam as mesmas inquietações e acabamos criando um grupo de estudos. Começamos fazendo leitura de peças teatrais, conhecendo autores e tendências, um pouco de história. Foi inevitável que desembocássemos no teatro espontâneo, numa imaginada volta às origens, o vínculo mais palpável entre teatro e psicologia. Não nos limitamos à especulação teórica e topamos experimentar, na prática, algumas idéias e verificar, na ação, algumas dúvidas. O grupo era aberto, incluía pessoas de outras profissões, inclusive ligadas às artes cênicas, sempre havia algum visitante/curioso, todos muito bem-vindos. Depois de alguns meses, Irene Stefânia, então assídua participante, levantou uma questão que nunca mais foi esquecida: por que, em vez de ficarmos só entre nós, não vamos à luta, fazendo teatro espontâneo aberto ao público, em outros espaços? Estava lançado o repto. Irene se foi algum tempo depois, outras pessoas vieram, o grupo segue até hoje e nunca mais deixou de fazer a experimentação prática, a atuação concreta e articulá-las com a reflexão teórica.Esse grupo de estudos foi a semente da Companhia do Teatro Espontâneo, a trupe experimental que se mantém até hoje em sua missão de investigar e de mostrar o teatro espontâneo nos mais variados espaços. Por mais de dez anos, a Companhia dedicou-se também à formação de psicodramistas, como diretores e atores de teatro espontâneo, à promoção de novas formas de eventos psicodramáticos e à divulgação científica, através do jornal "Leituras", enviado gratuitamente a cerca de 1600 leitores do Brasil e do exterior.Nesse tempo todo, fizemos teatro espontâneo nos mais diferentes lugares, com as mais diferentes populações, reunindo desde uma meia dúzia de gatos pingados até várias centenas de participantes. Cada uma dessas ocasiões representava um novo desafio e uma oportunidade de aprender. Erramos muito, mas criamos e aperfeiçoamos várias técnicas, sempre disponibilizadas a todos os nossos colegas através de seminários, cursos, escritos e supervisões.Foi com essa história que atendemos ao chamado de Marta Suplicy e Marisa Greeb. Dividimo-nos para trabalharmos em vários locais diferentes, formando mini-equipes, às quais se integraram outros companheiros com distintas trajetórias. Muitos ex-alunos e ex-professores nossos estavam em outras equipes. Cada um fazendo o seu trabalho, ao seu estilo, com a sua cara. Mas o mais importante de tudo, para nós, ao final dessa experiência ímpar, foi podermos constatar que, apesar das peculiaridades de nossa história e de nossas estratégias, nunca estivemos sozinhos. Ao nosso lado, cruzando caminhos e informações, fertilizando-se mutuamente, muitos colegas queridos, outros tantos até mesmo desconhecidos, vêm empreendendo, em paralelo, outras buscas e outras criações: o psicodrama e o teatro espontâneo são fenômenos mundiais; talvez, paradoxalmente, parida há quase um século, a estratégia do futuro. Isso ficou evidente nesse mega-evento e é uma das razões do entusiasmo e da alegria que envolvem, como uma aura, nossa participação.

*Psicólogo,psicodramatista,integrante do IPPGC, revitalizador do Teatro Espontâneo no Brasil.

Índice


A loura prefeita paulistana e os Morenos brasileiros

Ronaldo Pamplona da Costa*

"Marta Suplicy realiza mega-psicodrama em São Paulo". Jornais, revistas, rádios, canais de TV, Internet, todos, finalmente, se ocuparam pela primeira vez do psicodrama. A maioria das pessoas não tinha idéia do que seja. E acabou dando chamada com foto em primeira página de jornal.Moreno, se vivo, quereria estar no lugar do Cesarino para poder dirigir a prefeita. Foi o primeiro passo, não mais que o primeiro passo experimental em direção a uma possível sociatria.Mas, como sendo psicanalista, de onde Marta foi buscar esta idéia? Um bando de loucos, visionários psicodramatistas (nós e muitos além de nós) estava trabalhando, quase que em silêncio, desde a década de 80.Em 1980 comecei a pesquisar formas de utilizar imagens de vídeo para chegar à TV do futuro, como propôs Moreno em 1942. Criei, com um grupo, o videopsicodrama (circuito fechado de TV) para chegar no telepsicodrama (circuito aberto de TV) em pesquisa na USP e agora já penso em webpsicodrama.Durante os primeiros anos da década gravamos, exibimos e trabalhamos com videopsicodrama, dentro e fora de nossos consultórios. Em 1984, no clamor social por eleições diretas no país, Regina Monteiro nos convidou para realizar o "Psicodrama das Diretas", na Câmara Municipal. No grande comício das diretas, no Vale do Anhangabau, estávamos eu, Regina Monteiro, Carlos Borba, Vânia Crelier, Irene Stefânia e outros com uma faixa do "Psicodrama das Diretas". Deste primeiro, na realidade um sociodrama com tema político, até hoje foram mais de 40. A partir da década de 1990, Regina Monteiro criou o Grupo Extramuros e se especializou em psicodrama em espaços abertos (ruas, praças, parques).O segundo, realizado em 1985, foi o "Psicodrama da Aids", ainda na Câmara e teve 700 pessoas presentes. Em seguida, debate sobre o tema. Lá estavam Felix Gatarri, Suely Rolnik, Eduardo Suplicy, Moacir Costa e muitos outros. A partir de então, trabalhamos temas como violência, feminismo, machismo, arte, enfim, todos com enfoque social.Naquela ocasião, uma sexóloga começava a aparecer na mídia. Em função da sexologia, eu tinha um vínculo profissional com ela. Era Marta Suplicy que tinha seu quadro sobre sexualidade no Programa TV Mulher. Estive lá algumas vezes para divulgar nossos psicodramas. Jamais poderia imaginar que, um dia, ela seria prefeita e estaria buscando o psicodrama para seu trabalho na cidade.Em 1989, graças a prefeita Luiza Erundina, realizamos o "Psicodrama do Manicômio", na Praça da Sé. Precisamos de muita coragem e ousadia. Dramatizamos o tema tendo como protagonistas pessoas do povo, mendigos, doentes mentais e crianças de rua, além dos colegas psicodramatistas. Percebemos que era possível psicodramatizar no marco zero da cidade de São Paulo.O novo milênio chega e é alvissareiro para o psicodrama. A prefeita Marta Suplicy, uma política que considero psicodramatista na sua forma de ser, de pensar e realizar, nos convoca. E lá estávamos mais de 500 psicodramatistas realizando mais de 150 trabalhos simultâneos. É como se o MASP de 70 tivesse "explodido" e se multiplicado em 150 psicodramas com oito mil pessoas.Marta entrega, à pedagoga Marisa Greeb e ao médico João Batista Breda, a sua organização. Marisa, uma das primeiras alunas de Maria Alícia Romaña e uma das pioneiras do psicodrama pedagógico no Brasil, e Breda, um psiquiatra moderno, assessor de Marta.A Febrap foi convidada a participar da organização e o fez com toda a presteza, tendo a diretoria de divulgação e comunicação colocado todos os sócios, através da Internet, em contato com a comissão organizadora do evento.É o psicodrama na sua vertente educacional sendo utilizado por mais de uma centena de psicodramatistas. E, 12 anos depois, voltamos à Praça da Sé. Faço a direção de cena e Vânia Crelier, a direção da platéia. Os egos foram Angélica Sugai, Elisa Parahyba, Nícia Azevedo, Nurimar Almeida e Carlos Borba. Registra o evento, Suzana Castro, fotografa Juliana Azevedo e Lu Gallo grava em vídeo.Tablado com diretores e egos; música "Comida", com Marisa Monte; ninguém em volta. Cena-aquecimento com egos - cidadão e seus cinco direitos/deveres básicos: vida, liberdade, igualdade, segurança e propriedade. Reação da platéia: ninguém tem direito, é mentira, direitos de costas. Vários protagonistas, todos excluídos sociais: alcoólatras, mendigos, sem teto, sem emprego.Uma "louca" vem propor a saída da inércia. Um jovem que acredita que o país tem solução e que os direitos não são ouvidos porque não são reivindicados. O tablado está rodeado pelo povo e por fotógrafos e cinegrafistas de TV. A demanda dos excluídos é imensa. Uma jovem, hoje atleta, ex-moradora de rua, constrói uma casa para abrigar os excluídos. Um ex-presidiário, preso inocente, há seis anos sem emprego, diz que "rasga a constituição e limpa a bunda", pois ela não lhe ajuda. Uma jovem sobe e discursa dizendo que todos têm direito a educação e cultura. Percebo que "como se" não tem mais função porque o "como é" impera com toda a força. Não há necessidade de se psicodramatizar para revelar. Está tudo explícito.O grupo mandou imprimir panfletos com o texto "Você está feliz com sua cidade? Que tal uma São Paulo mais digna, saudável e gostosa? Marta Suplicy quer ouvir você. Venha dar o seu recado - "Psicodrama da Ética". Tinha sido distribuído, na véspera, e transformaram o nosso "como se" num palanque de denúncias. Um a um fizeram pedidos a Marta Suplicy. A admiração, a crença e a esperança nessa política é imensa.Na Praça da Sé, o psicodrama abre espaço para a miséria humana aparecer e se mostrar desnuda. A emoção de todos é muito forte. Para terminar ouvimos de novo Marisa Monte cantando: - "Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?"E depois de tudo isso é a alegria de ver a proposta sociátrica de Moreno, que na década de 80 muito semeamos tibiamente, dar o seu primeiro grande passo e mostra que, se sistematizada e de forma contínua, poderá fazer alguma coisa pela ética e cidadania de um povo. É a satisfação de ver a loura política psicanalista dando o braço para um Moreno sociátrico.

*Psiquiatra, psicodramatista, integrante do SOPSP


Índice


São Paulo: cenário para a concretização da proposta sociopsicodramática de Moreno

Herialde Oliveira Silva*

Uma imensa corrente energética abraçou a cidade de São Paulo através do trabalho dos psicodramatistas com a população, construindo dois marcos importantes. O primeiro, dentro do movimento psicodramático e o segundo no contexto político brasileiro.A convite de Dalka Chaves de Almeida Ferrari, psicóloga psicodramatista, participei do projeto "Psicodrama, Ética e Cidadania", de utopia da prefeita Marta Suplicy em parceria com a psicodramatista Marisa Greeb. Foi também uma oportunidade de retribuir, como curitibana que sou, a essa cidade que me acolhe há 35 anos, onde tive meus filhos e as oportunidades para me desenvolver como profissional, um pouco desse muito por mim recebido.Tenho experiência com populações carentes das mais diferentes regiões brasileiras pois participei, através da Pastoral da Criança e UNICEF, de uma relevante pesquisa utilizando o psicodrama, coletando dados. Esse trabalho, considero o maior troféu da minha caminhada como educadora, psicóloga psicodramatista, o que me entusiasmou a participar desta forma como cidadã do novo projeto.Dalka como diretora e Maria Cristina Salto, psicóloga psicodramatista, e eu, como egos-auxiliares, pudemos contribuir e interagir com outros cidadãos de forma ativa, espontânea e criativa, sem fantasias ou inferências, obtendo dados relevantes para construir uma cidade melhor.Trabalhamos no Centro Educacional Don Orioni - Obra Social da Igreja Nossa Senhora Aquiropita, no bairro Bela Vista, com um grupo de mães, três jovens, algumas crianças e um único pai. Todos foram muito receptivos, afetivos e participantes desejando mais encontros e assinalando respostas às perguntas chaves do projeto: acabar com o desemprego, a violência e maiores cuidados e dedicação com a educação e com a saúde, focalizando o controle de natalidade, o resgate da fé e o desejo de, como voluntárias, ajudar a comunidade a qual pertencem.Moreno, com essas respostas, encontra ressonância no que escreveu em seu livro "Teatro da Espontaneidade" (Summus - 1973), página 23: "...o homem precisa ser educado mas aqui educação implica mais do que mero esclarecimento intelectual, não se trata apenas de uma questão de deficiência na inteligência do homem e é algo mais do que o esclarecimento emocional; não é apenas uma questão de insight, mas, ao contrário, é um problema de deficiência na espontaneidade, de se usar a inteligência disponível e de mobilizar as emoções esclarecidas".Encontramos no mesmo livro e na mesma página o resgate da fé: " ... não há dúvidas de que o homem deva retroceder em seu caminho, partindo do plano existencial secular até reencontrar o plano sagrado, partindo do tecnológico e voltando até o plano espiritual, a fim de que a crescente expansão do self possa recuperar um equilíbrio interno; é um paradoxo, mas é o método de realização do santo e o método tecnológico do médico, os dois extremos - no meio dos quais se enquadram o método de realização do biometrista, do psicometrista, do sociometrista etc. - devem encontrar-se e fundir-se antes que novamente possa despontar a aurora da esperança".Esperança foi a palavra chave que encerrou nosso trabalho e com ela abrimos uma brecha para podermos ouvir e sermos ouvidos, receber e contribuir, fazendo de São Paulo a "Feliz Cidade" que a população laboriosa tanto almeja e merece.E é ainda Moreno quem confirma a iniciativa da prefeita, neste livro já citado, página 41: "... é a comunidade de onde brotam os dramas e os atores que os produzem, não é qualquer comunidade, uma comunidade abstrata, mas sim nossa cidade ou bairro, a casa onde moramos. Os atores não são quaisquer pessoas, mas nossa gente, nossos pais e mães, nosso irmãos e irmãs, nossos amigos e vizinhos. E os dramas nos quais estamos interessados não são aqueles que amadurecem nas mentes dos artistas, mas sim aqueles que muito antes de serem alcançados por estes, brotam na vida cotidiana, nas mentes das pessoas simples...".Que a corrente energética do dia 21 de março de 2001 possa se formar novamente nesse ano dedicado ao voluntariado, rumo ao resgate da beleza, da grandeza e da dignidade da majestosa e querida cidade de São Paulo.

*Psicóloga, psicodramatista, integrante do dep. de psicodrama do Inst. Sedes Sapientiae


Índice


A Ética da Paulicéia desvairada e o Psicodrama Público

Pedro Mascarenhas*

Para o "Psicodrama da Ética" preparamo-nos por mais de doze horas de reuniões em pequenos e grandes grupos ou sozinhos. Dramatizar uma cena junto com outros companheiros, onde assumo o papel de alguém que toma banho na Praça da Sé e batizamos um psicodramatista desvairado, orador, fez parte desta preparação. Trabalhei junto com Edit Elec, Josiane Ragha e Márcia Oliveira. Aqui já começamos a sonhar juntos. Isto já não é pouco.Ofereci meu trabalho a um grupo de trabalhadores da área de saúde da região da Vila Brasilândia, com quem eu já possuía um vínculo. Eles me localizaram no Jardim Vista Alegre, uma região bem distante (pelo menos para mim) qualificada de "feia" e onde "ninguém quer continuar trabalhando lá, todos querem sair logo, fugir de lá". A primeira reação foi de medo da violência: "Não seria melhor iniciar por um lugar mais fácil?". A conversa preparatória com os trabalhadores da região me acalmou e gerou confiança. "Leve-me para onde você precisa"! A cada contato voltava a tentar entender aquelas palavras "lugar feio" - "fugir de lá" . Solicitaram que, ao encontro, pudessem ir funcionários e pessoas da comunidade. Aceitei. Da diretora do serviço que nos ia receber também ouvimos as duas frases: "lugar feio, quero sair logo daqui". Porém, era uma pessoa com uma profunda dedicação ao serviço, alegre por nós estarmos lá, querendo melhorar a qualidade do seu trabalho. Logo marcou um lanche comunitário para todos com melancias, após o psicodrama.No dia do trabalho, logo no início, um usuário do Centro de Saúde solicita a palavra e fala das inúmeras reuniões que já participou - e nada. Também fala de que não são culpados pelos altos índices de violência do bairro, acrescentando que não tem saída, num tom de defesa dessa acusação. Pensei comigo mesmo: outro é o culpado? quem é o responsável? quem vai ser o bode, o excluído? será esta a feiúra e o motivo de querer fugir? O trabalho transcorreu com muita participação, entusiasmo e cooperação. Produzimos novos encontros entre os membros do grupo, compartilhamos imagens tristes da cidade, sonhamos, cantamos, rimos, nos emocionamos, e comemos melancia, juntos. O que isto tem que ver com a ética dos funcionários públicos da cidade de São Paulo? Vivemos juntos momentos de co-participação e co-criação. Ajudamos a fugir? Sim, mas num determinado sentido. Criamos linhas de fuga de um circulo infernal de passividade acusações e culpabilidade. Linhas de fuga da feiúra. A Paulicéia, através do psicodrama público, criou desvairos produtores de novas relações de vida. Produziu visibilidade, ouviu necessidades e sentimentos, homenageou anônimos funcionários. Fizemos algo juntos: sonhamos.

*Médico, psiquiatra, psicoterapeuta, psicodramatista, integrante do Inst. de Psic. J. L. Moreno

Participação

Foram mais de 150 atos psicodramáticos que tomaram as ruas, as praças, os espaços públicos da cidade de São Paulo no "Psicodrama da Ética e da Cidadania", no dia 21 de março.Com certeza, nossa vontade era de citar, nesta edição do Em Cena, o nome de todos os psicodramatistas que participaram. Mas, como os relatórios finais de cada ato ainda não foram concluídos, não temos ainda a lista completa com os nomes, tornando impossível homenagear a todos. Foram centenas, estimamos em mais de 500 profissionais envolvidos, um número que vem sendo considerado recorde para um evento deste tipo.Aos coordenadores de cada ato, solicitamos que levem às suas equipes de colaboradores nossa sincera homenagem.


Índice


Os cidadãos "fazem" a cidade

Leila Maria Vieira Kim*

No "Psicodrama da Ética" pudemos exercitar, na cidade de São Paulo, o "Teatro do Futuro" proposto nos anos 20 por Moreno. Em ambientes abertos e fechados, o psicodrama em suas diversas modalidades intermediárias, emergiu revelando novos talentos e novos métodos que deverão ser caracterizados.A arte honesta do momento, no aqui e agora, percorrendo o caminho da utopia, pode servir de instrumento a favor da emancipação do cidadão paulistano. O psicodrama, nesta prática, elevou-se no nível de qualidade de desenvolvimento de seus objetivos: "organização genuína da forma, auto-realização criativa do ato, estruturação do espaço, concretização de relacionamentos humanos no âmbito da ação cênica" (Moreno,1921). O trabalho psicodramático, na medida em que se apresentou de forma afetiva e cognitiva, pode "ficar amigo" das resistências políticas, antropológicas, psicológicas, sociais e contribuir no ETHOS do grupo. No entanto, a profundidade da percepção de si no grupo poderá ser ampliada para um objetivo maior, tema do psicodrama: "o relacionamento entre o indivíduo e a sociedade" (Moreno, 1921) para facilitar a compreensão da diferença entre a realidade do contexto social e os diferentes projetos que se desenvolverão nele. Para isso, será necessário sinalizar para o outro - psicodramatistas, população, governo - o caminho da experiência, de modo que a seqüência das informações possam nos conduzir no processo. É pelo acesso ao substrato material dessas informações que se desenvolverão diferentes caminhos seqüenciais: úteis, lógicos, psicológicos etc. onde todos poderão estar incluídos. O contexto de valores presentes neste processo de intervenção desvela as ideologias ocultas que indicam os problemas, mas dão também as referências. A estratégia de ação política poderá ser desenvolvida através de ações estratégicas de redes que permitirão transformações da ação social. O psicodrama funcionará como instrumento de democratização, na medida em que houver acesso constante às informações. Assim, o poder do conhecimento poderá se expressar na ordem política que está seqüestrada pela ordem econômica.Portanto, da análise de produção das práticas do dia 21/03/01, emergirá o entendimento teórico, para que possamos ter melhor compreensão de onde estamos entrando e qual é a diferença entre emancipação e autonomia. Desse modo, trabalharemos juntos na construção do futuro enquanto desejo de alguém: nós mesmos, o outro - grupo ou sociedade - permitindo a emancipação reflexiva. Da desinstrumentalização da ideologia surgirá o desejo irresistível do esclarecimento da consciência e "os cidadãos farão a cidade" (Knigt in Tassara, 2001).A "multidão pensa por imagens" (Freud, 1921). A imagem final construída pela população presente na Praça da Liberdade, no dia 21/03/01, confirmou este fato: ao serem desamarradas as fitas coloridas que os enlaçavam, cada subgrupo segurou numa delas formando colunas, que amarradas ao centro e levantadas por um bastão, formaram uma mandala que se movia no sentido anti-horário. Na extremidade de cada coluna estavam os cartazes com as propostas dos cidadãos presentes. Mais e mais cidadãos se aproximaram desta imagem onde pessoas em sua singularidade conviviam e participavam integradas, apesar da diversidade das propostas de cada subgrupo construído pela identificação de interesses. O ser político e ético se manifestou na estética. Todos permaneceram afetivamente ligados e o movimento do foco central - mandala - atraía e movimentava a zona de periferia. Desse modo alguns observadores/participantes se incluíam no movimento da mandala pela identificação, quando se percebiam representados; enquanto outros admirados se expressavam dizendo frases tais como: - "É um carrossel?". - "Muita coisa ainda para falar... mas isto é honesto!". - "Muito bom a população lutando pela cidadania, os cartazes mostram o que foi falado e quem vai dar opinião é olhar e ver...". - "Eu não entendo sua língua, mas estou gostando!".Muitas das idéias presentes neste artigo estão sendo desenvolvidas pela Profª. Dr.ª Eda Tassara USP-SP.*Psicóloga, pedagoga, psicodramatista, diretora geral da ANIMUS


Índice


Psicodrama, Sociodrama e Axiodrama Público - Sessões Abertas

José Fonseca*

Assisti pela primeira vez a um psicodrama público em 1967, durante o Congresso Latino-Americano de Psicoterapia de Grupo, em São Paulo. Aconteceu no Teatro da Universidade Católica (TUCA) e foi dirigido por Rojas-Bermudez. Teve grande repercussão na comunidade psiquiátrica e psicológica da cidade. Fiquei surpreso com a forma como as pessoas desnudavam-se psicologicamente e pela maneira espontânea com que o público interagia com os protagonistas. Mais tarde, já como psicodramatista, assisti e dirigi inúmeros psicodramas públicos. Mas nada me impressionou tanto quanto as sessões abertas no Instituto Moreno, em Beacon, em 1979. O que mais me encantou foram os participantes que iam em busca de ajuda psicoterápica. Diferentemente de minhas experiências anteriores, em que os grupos eram constituídos basicamente por profissionais da área de psicologia, em Beacon, o público era formado preponderantemente por leigos desprovidos do interesse do aprendizado da técnica. Essa experiência americana determinou que o DAIMON-Centro de Estudos do Relacionamento, em São Paulo, entidade que coordeno, iniciasse as Sessões Abertas de Psicoterapia em 1984 e as mantivesse até agora.O psicodrama público, a mais curta das psicoterapias, foi apresentada por Moreno como decorrência de suas experiências com o teatro da espontaneidade. Se era possível apresentar uma peça de teatro criada pelo público, pelos atores e pelo diretor em um único mis-en-scène, também seria possível realizar o tratamento de um grupo e de uma pessoa de uma só vez. Essa possibilidade favoreceu o aparecimento das demonstrações de técnicas ao vivo (workshops), em contraposição aos relatos de casos clínicos pré-preparados (nos quais, em geral, os profissionais relatam somente os seus sucessos), aos dos grupos de encontro, que tiveram seu apogeu nas décadas de 60 e 70, aos das maratonas de fim de semana e de muitas outras formas flexíveis de psicoterapias grupais. Não podemos esquecer ainda que as chamadas psicoterapias breves ou focais também receberam, de alguma maneira, influências da psicoterapia brevíssima que é o ato terapêutico, o psicodrama público ou a sessão aberta de psicodrama.O psicodrama realizado em grupos que se reúnem semanalmente é uma psicoterapia processual de grupo. Inspira-se na psicoterapia psicanalítica de grupo, que segue o modelo da psicanálise individual: sessões reiteradas e continuidade do processo terapêutico a longo prazo. Ao adquirir o Sanatório Beacon Hill (mais tarde transformado no Instituto Moreno de Treinamento em Psicodrama), em 1936, Moreno passa a realizar sessões psicodramáticas diárias com os pacientes internados e com os que retornam para seguimento clínico. Os grupos apresentavam uma dinâmica inconstante, devido às altas clínicas e entradas de novos pacientes. Apesar de constituírem uma experiência diferente do psicodrama público, os grupos ainda não guardavam as características dos grupos semanais (processuais) contemporâneos. O psicodrama público é o verdadeiro psicodrama de J. L. Moreno. Dirigir uma sessão aberta, em que não se conhece o grupo nem o protagonista nem os egos auxiliares (originados do grupo), é o supremo desafio para o psicodramatista. Ele não conta como trabalha, ele demonstra. O psicodrama público não tem script previsível, é novo a cada apresentação. O ritual se repete mas o produto é sempre inesperado. Quem e como será o protagonista? Como será a direção? Qual será a ressonância do grupo? Nada é previsível, tudo é novidade!A sociodinâmica do psicodrama público não se insere na dinâmica dos pequenos grupos, tampouco na psicologia das massas. Os cinco instrumentos, as três etapas da sessão e as técnicas do psicodrama são os trilhos por onde corre o trem da espontaneidade. A espontaneidade do psicodrama é diferente da do happening, que é anárquica e narcísica. No psicodrama não há embate do protagonista com o diretor. Eles não são adversários, são aliados contra o inimigo comum: o conflito ou a doença. Quem vencerá? Eles começam o trajeto psicodramático. Esquivam-se das resistências. Esgueiram-se pelos labirintos transferencias. Recebem o click télico, chegam à espontaneidade. Algo é posto para fora (acting-out) e reorganizado na catarse de integração. Os psicodramatistas contemporâneos apresentam diferenças técnicas - pluralidades - especialmente em seu modo de atuar em psicoteapia individual. Essas diferenças são menos evidentes na direção de grupos terapêuticos processuais e praticamente desaparecem quando se trata do psicodrama público. É claro, que as características pessoais ou os modos dos papéis de cada um, influem na maneira de dirigir, mas as diferenças técnicas são mínimas nesta modalidade de trabalho. Mesmo psicodramatistas com origens e formações diferentes se conduzem de forma semelhante em psicodrama público. As diferenças entre os diretores de psicodrama público assentam-se, basicamente, na compreensão psicodinâmica e na conseqüente passagem de cenas. Cada profissional as realiza de acordo com seu referencial teórico. Moreno não deixou nada sobre psicoterapia individual, deixou pouco sobre terapia processual de grupo e muito sobre psicodrama público. O psicodrama público é a forma mais acabada de psicodrama que Moreno nos deixou. O psicodrama público, ou sessão aberta de psicodrama, ou ato psicdramático, aproxima todos os psicodramatistas.Participei do "Psicodrama da Ética e da Cidadania" com um grupo de aproximadamente 40 pessoas, seis homens e 34 mulheres, que se alternavam em entradas e saídas. Eram funcionários públicos municipais do CEFOR e de outros setores, funcionários terceirizados e pessoas da comunidade (estudantes e professora de uma faculdade próxima). Solicitei que os participantes fechassem os olhos, prestassem atenção em seus corpos e deixassem vir à mente uma cena do passado e outra do presente com relação à cidade; que examinassem nesta tela ou munitor interno os detalhes, os aspectos envolvidos nelas e as registrassem na memória. Sugeri então que cada um estabelecesse um diálogo interno no sentido de saber se desejava, estava em dúvida ou não desejava apresentar suas cenas para serem dramatizadas. Todos os funcionários terceirizados, embora tenham participado do aquecimento, não se manifestaram e, antes da apresentação, aos poucos saíram da sala. Oito participantes se interessaram em dramatizar e montaram cenas retratando o trânsito tranqüilo e as ruas com segurança, cenas comuns do passado, e depois o trânsito caótico e a violência nas ruas, que é o que se vê no presente. O público debateu animadamente as cenas fazendo ponte com as situações que vive no cotidiano. A discussão se encaminhou para o que deveria ser realizado, o que seria dever do governo e dever do cidadão.Na cena final foi utilizada a técnica da cadeira vazia, onde quem quis desempenhou o papel da prefeita. Houve cobranças e sugestões para melhorar a cidade; apareceram questionamentos que refletiam sobre a necessidade de o cidadão se envolver com os problemas da comunidade.

*Psiquiatra, psicodramatista, também autor de "Psicoterapia da Relação" - Ed. Ágora - SP/2000, integrante do SOPSP


Índice


Psicodrama com a Guarda Civil Municipal

Antônio Carlos Cesarino*

A proposta era de se fazer um sociodrama com a temática de "Ética e Cidadania". A equipe era composta de 20 pessoas: Luiza Franco, Maria Luiza Santa Cruz, Fátima David, Walter Pereira Baia, Vera Lúcia Amorim, SilviaRocha, Rosangela Gomes de Souza (membros do Qualis - projeto da Secretaria Estadual da Saúde) trazidos pelo psicólogo Antônio Lancetti; Haroldo Pedreira (membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP), cinco psicólogas da Guarda Civil Municipal: Jussara Borges Viana, Ana Luiza Monteiro de Barros, Eliza Ayako Shirasu, Ivone Iumi Murakami e Ângela Guelfe, Valéria Nador, psicodramatista da SOPSP, Mathias Lancetti, câmara, Cristina Rocha, atriz de teatro, e duas observadoras, uma antropóloga, Ana Maria de Niemeyer e uma assistente social, Regina Ignarra que anotaram tudo.Como se vê havia pouca gente experiente em psicodrama. Por isso mesmo, além de duas reuniões preparatórias, começamos o aquecimento da equipe no próprio local do trabalho, às oito horas, três horas antes do início do sociodrama propriamente dito. Com isso, aos poucos foi se diluindo boa parte da apreensão dos seus membros, além de se preparar algumas cenas para serem utilizadas caso fosse necessário (se o público, desaquecido, não fornecesse material). Foi feito um longo aquecimento, iniciado por Antônio Lancetti, que explicou cuidadosamente o que se iria fazer e fez o que a gente chama de "contrato" com os presentes. A seguir passei a fazer um aquecimento psicodramático, que tinha que ser forçosamente longo, dado o tamanho da platéia, mais de 600 pessoas. Não vamos detalhar todos os passos aqui, mas percorremos o caminho desde a fase inicial de "isolamento" relativo das pessoas, com o clima tenso, pesado, do público, que atinge a equipe toda, ao estabelecimento das identidades, à fase da aproximação e afastamento das pessoas, ao momento das descobertas e exibições, até a fase do surgimento de grupos que se diferenciavam, colaboravam e disputavam um espaço para dramatizar.Surgiu aquilo que a teoria descreve: tensão produtiva, ação, curiosidade, prazer, entusiasmo, disputa, enfim, um grande clima de trabalho criativo. Foi tão grande a produção de cenas pela platéia que não se conseguiu trabalhar tudo o que foi solicitado. Talvez tenhamos feito mais de 20 dramatizações. Por vezes as cenas se atropelavam; antes do término de uma delas havia mais dois ou três grupos já com cenas prontas (a platéia aprendeu rapidamente), à espera de sua vez. Isso, naturalmente, impediu que algumas situações pudessem ser mais profundamente trabalhadas. Mas a nossa opção consciente era a de que era bom que o método fosse assimilado e aceito pelo grupo como prioridade. Durante a etapa de aquecimento tinha sido repetido para o grupo que nosso tema era ética e cidadania e que importava tratar com o cidadão guarda civil e seu comportamento enquanto ser humano e morador desta cidade. Isso foi atingido durante o trabalho, embora sem a insistência e a profundidade que teríamos desejado.Pode-se pensar que esse fenômeno se deu por diversas razões. Por exemplo: de repente se concedeu a fala e a atuação livres a um grupo da população originalmente periférica, isso desencadeou a grande quantidade de sentimentos e idéias represados pela própria situação social durante toda vida; o se perceber autor do próprio script transformou o grupo em intensamente ativo, embora nem sempre original; a aparente exigüidade de exteriorização de subjetividades se deve ao fato de que as classes populares lidam e conhecem a própria subjetividade de forma diferente da classe média psicologizada à qual pertencemos; haveria muito a discutir a respeito de tudo isso, mas não temos espaço aqui.O envolvimento do público foi tal que a própria prefeita, presente até o fim do trabalho, foi convidada por um grupo de guardas a dramatizar; aceitou e dramatizou muito bem, fora de seu papel institucional. O que seria temor hierárquico em outras circunstâncias, transformou-se em participação livre e solidária. Isso é psicodrama: um momento de liberdade.

*Psiquiatra, psicodramatista diplomado pelo GEPSP - V Congresso Internacional de Psicodrama 70/MASP


Índice


Abolicionismo

Maria Alícia Romaña*

A minha conhecida mentalidade abolicionista (que marca novos rumos para alguma coisa que caminha só em determinada direção) sentiu-se chamada a participar sem nenhuma dúvida de um desafio como o do 21 de março.Tinha motivos de sobra para isto: Era e foi uma oportunidade de conferir "com quantos paus se faz uma canoa" escolhendo a qualidade delas, claro. Era e foi uma oportunidade de confirmar que a sociometria não é apenas uma teoria num papel. Era e foi uma oportunidade de recriar o estímulo para um movimento perdido de participação coletiva. Era e foi uma oportunidade de exercitar publicamente minha proposta da pedagogia do drama. Era e foi uma oportunidade de co-construir a partir de valores de beleza, benefício e bem. Era e foi uma oportunidade de testar um modelo imaginado de co-direção múltipla de apoio. Era e foi uma oportunidade de executar uma coordenação de equipes (no caso cinco) sem um contrato burocrático. Era e foi uma oportunidade de trabalhar com a idéia do pensamento complexo. Que realidade mais complexa que esta cidade!? Era e foi uma oportunidade de re-avaliar o sentido do ato voluntário no agir profissional. Era e foi uma oportunidade de me solidarizar com o outro sentido da data 21 de março: dia mundial contra a discriminação racial. Era e foi uma oportunidade de aderir ao repúdio à violência e desrespeito à cidadania que representou o golpe militar de 1976 na Argentina.Vinte e cinco anos depois, a vida me ofereceu a oportunidade de dar esta resposta. Amigos, por tudo isto, a pequena pedagoga que na década de 60 ousou enfrentar o stablishment psicodramático e que vive dentro de mim, sentiu-se feliz, feliz; simplesmente feliz.

* Educadora, introdutora do Psicodrama Pedagógico no Brasil, integrante da ABPS.


Índice


O ir e o ver de fora

Agenor Vieira de Moraes Neto*

O nosso psicodrama, que na verdade se chama sociodrama, merecia essa oportunidade de dirigir um mega evento para a população da maior cidade do Brasil. Historicamente, sabemos que o psicodrama foi criado para praças públicas e para atender grande número de pessoas em questões que as afligem. Muitas vezes, deixamos essa prática para ficarmos em nossos consultórios.A quarta parede, tantas vezes heroicamente derrubada por grupos de Teatro Espontâneo aqui e ali, dessa vez se concretiza de uma maneira contundente pela comunidade psicodramática em mais de 160 pontos diferentes da cidade de São Paulo. Palcos foram criados em ambientes abertos e fechados, pequenos e grandes, os verdadeiros atores e platéias convocados, diretores e ego-auxiliares presentes e o tema não poderia ser mais adequado tanto para a cidade quanto para o próprio psicodrama: o que você pode fazer para ter uma feliz cidade? o que o psicodrama pode fazer ...? qual a nossa participação nessa felicidade?Eu, Juliana Fida, Beatriz Ferreira, Magda Scudeler, Cláudia Madureira e Roseli Gonçalves, viemos de Campinas e de Sorocaba e fomos designados para um canto dessa metrópole, o Jardim Helena, zona leste, próximo a São Miguel Paulista. O público era composto de mais ou menos 50 pessoas, entre funcionários, pais e alunos da Escola Ministro Aliomar Baleeiro que atende crianças de cinco e seis anos. O tema foi tirado do público que norteou todas as dramatizações: cidadania é o direito de ser uma pessoa através da solidariedade e de uma auto organização das pessoas que fazem parte do bairro, projeto continuidade.Ver essa e outras histórias de São Paulo, de Campinas e de Sorocaba nos traz algumas esperanças e nos confirmam uma crença: a cidade de São Paulo é muito pequena para o psicodrama. Não devemos ficar restritos apenas lá, aqui, assim como ali mais adiante deste país. A necessidade de se trabalhar o socius é muito importante. A missão do psicodramatista é essa. Se ficarmos contentes e satisfeitos com aquilo que ocorreu e cruzarmos os braços, o próximo passo é questionar o nosso papel de psicodramatistas, com os parâmetros da ética e da cidadania.

*Psicólogo, psicodramatista, integrante do IPPGC


Índice


A experiência da cidade de São Paulo

Ana Maria Otoni Mesquita*

No psicodrama público da cidade de São Paulo a experiência psicodramática foi caracterizada pela utilização de técnicas sociodramáticas, cujo protagonista era o grupo, o grande grupo, com uma temática axiomática subjacente: "Ética e Cidadania".O público, calculado em cerca de 8 mil pessoas, era, especificamente, o funcionário público e, amplamente, a população em geral. Foram mais de 700 psicodramatistas, diretores e egos-auxiliares espalhados em 160 pontos da cidade entre escolas, praças, estações de metrô, estacionamentos e teatros.Cada grupo tinha por objetivo explorar o tema a partir de três questões: quais os problemas que você identifica na sua cidade?; o que fazer para resolvê-los?; e como você poderia contribuir para isso? E foi com esse espírito de curiosidade profissional, de estar participando de um grande e acolhedor encontro, que viajei a São Paulo naquela manhã ensolarada de quarta-feira. Ao chegar à Escola Chiquinha Rodrigues, em Campo Belo, fui recebida com entusiasmo pelo grupo coordenado por Madalena Rehder, diretora de Ensino e Ciência da FEBRAP. Esse mesmo entusiasmo foi dispensado a cada participante que entrava na sala, no princípio um pouco tímido, querendo saber se era ali mesmo que o psicodrama ia acontecer. Aos poucos um grupo de 20 participantes (fora a equipe de diretores e egos-auxiliares) entre professores, conhecedores do psicodrama e moradores do bairro foi se sentindo a vontade para falar de suas angústias e preocupações. Se a violência foi uma tônica de quase todas as falas, não faltou quem falasse do trânsito, do desamparo aos mais velhos, do pedir socorro dos alunos e professores. Espaços para o compartilhar e criar novas alternativas de convivência. Uma imagem construída pelo grupo, com fitas coloridas, fez jus a sua multiplicidade de cores e formas que implica essa construção. O laço, para alguns, representou a união para realizar; para outros, o verde era esperança. Os nós pareceram as flores sobre um túmulo, contudo, sobre a morte, a necessidade de construir juntos novo e bonito. Também o temor era que tudo isso terminasse quando a cena chegasse ao fim. Entretanto, a partir das imagens, dúvidas e do trabalho realizado através da ação dramática, o grupo chegou a conclusão bem concreta de que esse era apenas um primeiro passo para construir uma feliz-cidade. Era preciso reavivar o sentido de coletivo e não apenas sermos responsáveis por nossas ações enquanto indivíduos isolados, mas co-responsáveis, co-criadores, co-colaboradores e co-participantes. Sugeriu-se que a própria escola poderá ser um espaço privilegiado para o debate, a troca, o existir um para o outro, o solidarizar-se.À noite, na confraternização no bar Tipuana, na Vila Olímpica, os psicodramatistas estavam eufóricos. Todo mundo querendo contar sua experiência, querendo compartilhar. Marisa Greeb, que dirigiu o psicodrama da Freguesia do Ó, fez duas observações que me chamaram a atenção: a capacidade do psicodrama de acolher independente de raça, religião, idade e sexo e a capacidade de transformar forças ressentidas em energias positivas. Na sua experiência com os moradores de rua, ela observou a emoção de um deles que afirmou ser a primeira vez que lhe dirigiam a palavra. Observou, também, a reação primeira desses moradores, apesar de se sentirem excluídos, sugerirem a exclusão do movimento punk, por bagunçar o espaço da praça. Depois veio a sugestão de que era preciso reunir-se mensalmente, aplicando o psicodrama para solucionar os problemas do local. Maria Rita Seixas, psicóloga e psicodramatista, que dirigiu um grupo de 30 pessoas numa escola, pontua que as pessoas levantam a questão da nucleação, do individualismo como uma dificuldade a ser superada na solução dos problemas da cidade e, de novo, o grupo propõe encontros que desenvolvam o sentido de coletividade. É como nos faz notar Madalena Rchder: no psicodrama trabalhamos transversalmente o individual, o grupal e o social. Nada acontece isoladamente.Não é todo dia que um sonho se realiza com tanta intensidade. E se minhas 24 horas em São Paulo estavam se esgotando, minha crença no potencial do psicodrama, o potencial de acolher, desenvolver as forças de transformação individual, grupal e social através dos recursos da cena, da espontaneidade e criatividade ficou, sem dúvida, ainda mais forte.

*Psicóloga, psicodramatista no Rio de Janeiro, integrante do Delphos Espaço Psico-Social


Índice


Psicodrama da Ética

Sissi Malta Neves*

No ano de 83 iniciei a caminhada de trabalhar com expressões dos grupos comunitários, na Praça Central de Pelotas (RS), utilizando técnicas teatrais, baseadas em Augusto Boal, no trabalho com jovens lavadores de carro e pedintes. Em 93, como psicóloga do Projeto Jovem Cidadão, pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre (PMPA), desenvolvi oficinas de psicodrama com crianças e adolescentes em situação de risco. Após 94, o trabalho de abordagem de rua, entre a PMPA e o Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre, apontou a necessidade de criação de ensino específico para estes meninos e meninas, surgindo a Escola (aberta) de Porto Alegre. Assessorei seus educadores, durante dois anos e meio, promovendo o desenvolvimento dos papéis profissionais a partir da experiência psicodramáticas.Como coordenadora do Projeto Educação Social de Rua, da PMPA, de 96 a 97, novamente lancei mão do psicodrama para a sensibilização da equipe ao cotidiano da rua. Desde esta época, as consultorias que realizei aos serviços de atendimento sócio-educativo da Administração Popular foram intervenções institucionais que basearam-se na metodologia psicodramatista.Embora esta experiência anterior seja significativa, para mim o "Psicodrama da Ética" representava algo mais autônomo e indefinido. A apreensão quanto ao grupo, como seria o local e se alguém iria estar presente foram algumas fantasias que povoaram minha solidão e silêncio.Encontrei 27 participantes, três homens e 24 mulheres, no auditório da Administração Regional de Santo Amaro, em sua maioria funcionários de vários setores deste equipamento e de outros da prefeitura de São Paulo, havendo, entre outros, poucos moradores da região. Este grupo, basicamente do gênero feminino, com diversas idades e raças, mostrou-me, mais uma vez, que ali estava o que sempre me fascinou no psicodrama: o ousar ser diverso.Nossa dinâmica aproximou-se da ecosofia proposta por Felix Guattari, retratando a relação da subjetividade com sua exterioridade: social, animal, vegetal e cósmica. Os três registros ecológicos, o do meio ambiente, o das relações socais, assim como o da subjetividade humana manifestaram-se em todas as fases desta vivência.O aquecimento inicial estimulou ao máximo a integração à natureza, ao corpo, com suas sensações, emoções e limites, e ao experimentar o outro como realidade e virtualidade. Assim, a presença da música, para o relaxamento e a sensibilização corporal, foi tecendo a dinâmica inicial da vivência. Partindo das sensações corporais, perceberam o coração da Terra, abrindo-se para a relação com a natureza. Como em uma tribo, expressaram-se por gestos de várias intensidades afetivas, criando seres primitivos em descoberta dos elementos terra, ar, fogo e água como potentes forças.Em cenas de psicodrama interno constataram com a decisão de pensar sobre ética, percebendo, em seu átomo social, pessoas importantes a quem contariam sobre este evento. Buscando dramas e lugares de São Paulo que gostariam de modificar, utilizaram um desses quatro elementos, agrupando-se por semelhança e complementariedade de suas funções. Em duplas, jogaram tal transformação com intensa cooperação, compartilhando imagens que tinham as histórias modificadas.Os participantes criaram uma passeata com personagens significativos em suas vidas, reivindicando e inventando uma nova relação entre os cidadãos, como em uma rede com movimento e som característicos. As dramatizações e produções conjuntas demonstraram a potencialidade dos vínculos que se intensificaram, fazendo emergir a riqueza da criatividade e da espontaneidade. A construção das cidadanias foi vivida no jogo do tensionamento entre a exclusão e o pertencimento às redes sociais. Criaram a história conjunta de "Era uma vez um cidadão". Surge um sujeito carente de recursos, exausto, indignado, à espera de alguma providência que, às vezes, parece vir do estado e, por outras, seria decorrente da sua consciência. Na relação entre direitos e deveres à cidadania, alguns trocaram de papéis assumindo-se como o complementar "representante do estado e da instituição".Os grupos do estado e de cidadãos formaram um coro de palavras sobre seu cotidiano que são repetidas pelos semelhantes e respondidas pelos oponentes. Cada grupo cria a sua imagem advinda daí. Quem assiste torna-se platéia e emite sua percepção da cena. Aos poucos, novas cenas se desenrolam com os atores acreditando na possibilidade de mudança. A diretora pede que fechem os olhos e imaginem a cidade ideal dentro da história de cada um. Depois o grupo negocia sua produção. Falam que o cidadão precisa se expor, escutar, falar e que comunidade ideal é aprendizagem. Concretizam a "imagem da comunidade" com uma imensa beleza e harmonia. Com as mãos unidas e voltadas para o alto, em movimento que representa a busca do tempo, o grupo se aproxima para um diálogo comunitário.Alguns de pé demonstraram o respeito às diferenças; outros curvados e ainda presos no chão, ergueram-se, preparando o momento do diálogo. Andando um atrás do outro em círculo mostraram como estavam sentindo-se, se prontos, de pé, se não, abaixados. Aqueceram -se até o instante em que cada um se reconheceu como cidadão. Todos de mãos dadas e com os ombros unidos, criaram um movimento ondular, representando continuidade e persistência nessa busca. Cada um fez seu solóquio: "confusão, união, dificuldade, diferenças, luta, desigualdade, compreensão, organização, cooperação".Durante a vivência grupal, as identificações se processaram facilmente, entretanto foram apontadas dificuldades de expressão entre gêneros diferentes. A linguagem teatral parecia reservada ao universo feminino, pelo seu resgate da emoção e exposição de fantasias.Os comentários trouxeram a síntese das intensidades compartilhadas, produzindo a re-significação do ser cidadão e do projeto comunitário baseado na vida. O poder deixou de ser "a instituição cristalizada", transformando-se em múltiplas possibilidades.O grupo parece ter acreditado nos momentos de respeito à alteridade e à diversidade, como única condição à verdadeira ética e cidadania. Ao fecharmos as cortinas de nosso "Teatro Social" penso que algumas reflexões destes atores deveriam ecoar não somente nas ruas de São Paulo, mas em todos que estão no limite da passividade em sua condição de profissionais brasileiros. Sinto que elas revelam a esperança e a necessidade humana de encontrar-se com o outro e consigo mesmo e, certamente, ao serem processadas neste mágico palco psicodramático, serão de reciclagem de papéis sociais. Desejo que elas aqueçam a muitos outros colegas psicodramatistas, despertando-os para a luta da criação de novos cenários comunitários. Bravo, Moreno!"Não trabalho em grupo com o público, o funcionário devia ver que poderia estar também na pele de outro. Se reconhecer como funcionário e ver nossa condição de cidadão igual ao outro"; "Eu vim só espiar este trabalho. Achei que seriam artistas apresentando uma peça e, de repente, me vi como comunidade"; "A gente tem que acreditar que tá podendo!"

*Psicóloga, psicodramatista, integrante da Comunidade Catarinense de Psicodrama


Índice


Ética e cidadania no Rio de Janeiro

Maria Cecília Veluk*

Inacreditável! Foi o primeiro pensamento que tive quando li sobre o evento que minha colega nos tempos de universidade, Marta Suplicy, estava propondo para março. Finalmente, o sonho de Moreno e de todos nós psicodramatistas iria se tornar realidade: uma atividade sociopsicodramática que teceria uma rede social de compromisso do cidadão ético com seu meio.Que beleza, que alegria e mesmo morando atualmente no Rio de Janeiro me senti plena de satisfação por estar fazendo parte desse momento. Porém, só esse sentimento não me pareceu suficiente. Queria poder participar e me veio o sonho de podermos, mesmo que de forma inicial, pensar em ampliar e tecer essa rede em nível nacional.O Delphos Espaço Psicossocial, do qual faço parte, há sete anos desenvolve uma atividade sociodramática gratuita, aberta à comunidade, todas as 2ª segundas-feiras de cada mês, visando a reflexão e busca de alternativas para as questões do cotidiano, porque então não propor realizar aqui no Rio de Janeiro, em de março, proposta semelhante a São Paulo e assim estarmos engajados nesse pensar coletivo?Foi assim que, no dia 13 de março, às 20h15, iniciamos o sociodrama "Ética e Cidadania no Rio de Janeiro". Éramos três psicodramatistas e um público heterogêneo de 16 pessoas de ambos os sexos, diversas classes sociais, entre 18 e 50 anos, diferentes profissões, estudantes.Iniciamos com um aquecimento inesperado verbal para identificar o que essas pessoas buscavam no tema proposto. O aquecimento específico foi feito utilizando-se charges de jornais e textos na sua relação ética com seu meio. A seguir foi solicitado que, em pequenos grupos, preparassem e dramatizassem cenas do cotidiano que surgiram a partir daí. No decorrer das vinhetas dramáticas, a platéia manifestou-se para encontrar alternativas de lidar com as situações que estavam sendo dramatizadas.Segundo a psicodramatista presente, Lilian Rodrigues, foi muito estimulante vivenciar um sociodrama que mobiliza, evidencia o status quo do grupo e desperta uma nova possibilidade de estar em comunidade. Pudemos perceber, o quanto a descrença, o comodismo, o medo e o egoísmo fazem com que não lutemos pelos direitos, o quanto é difícil exercer o que chamamos "cidadania". Refletimos como a ética deve ser contextualizada para que se possa exercer o papel de cidadão adequadamente; como é mais fácil ficar em casa reclamando que as coisas estão erradas. Para mudar essa situação, é importante a união.Do ponto de vista técnico verificamos que o sociodrama tem um poder forte de mobilização social. Precisamos viver experiências assim, exercitando-nos nas práticas socioeconômicas e vivendo concretamente a chamada "utopia moreniana".

*Psicóloga, psicodramatista, integrante do Delphos Espaço Psico-Social


Índice


História de estórias

Luiz Contro*

Passado um certo tempo do evento, as impressões ainda estão vivas e muito parecidas. Tendo me deslocado, junto com Sandra Bezerra e Adriana Carreira, de Campinas para São Paulo, dirigimos um sociodrama numa biblioteca do Madaqui - Zona Norte - e sabíamos estar participando de um momento histórico dentro do psicodrama brasileiro.Dos primeiros contatos telefônicos junto à coordenadora da biblioteca, identificamos um certo descrédito sobre a viabilidade do evento, expresso na queixa de dificuldade de divulgação, falta de material e tempo hábil para distribuí-lo. Na verdade, um tema central já estava se delineando: a descrença frente a qualquer alternativa de transformação do instituto. Este, sinônimo de abandono de muitos anos, de promessas não cumpridas, de objetivos, no mínimo, duvidosos. Tal tema foi se confirmando durante muitas passagens da atividade. Os movimentos de chegada dos participantes, por exemplo, foram bastante tímidos, por vezes desconfiados por não saberem o que ali poderia acontecer, mas também por falta de motivação.Algumas crianças entre oito e nove anos, alguns adolescentes de 15 e 16, alguns funcionários da biblioteca, um aposentado, uma dona de casa e dois ou três adultos que vieram devolver ou pegar livros emprestados, viram, se envolveram e ficaram. Este foi o argumento que, junto a nós, iniciou o trabalho, somando 23 pessoas.Do aquecimento às cenas montadas pelos sub-grupos, o clima foi se transformando. Apropriar-se de que tinham uma história, eram vizinhos e nem se conheciam; reconhecer-se na cena do motorista a destratar a velhinha; compartilhar a descrença frente ao personagem que era um político a prometer mundos e fundos vazios; perceber que estávamos entranhados da postura de quem delega sempre ao outro a iniciativa para com o bem público e de que havia um inconformismo conformado com a falta de ética generalizada, fez com que os corpos fossem ganhando a vivacidade da participação, o comprometimento pela identificação dos problemas comuns, o brilho propiciado pela construção coletiva que, simultaneamente, nos transforma num grupo.Findada a atividade, éramos um grupo que havia produzido algumas interessantes alternativas, como a do lixo reciclável ou a da melhor utilização do espaço da biblioteca. Trocaram endereços, marcaram encontros. Mas, fundamentalmente, mesmo que por um curto espaço de tempo, fomos um agrupamento que se transformou.Voltamos os três reluzentes por termos participado, numa brecha do instituto, de um estímulo a novas histórias para, quem sabe, uma nova história de participação popular.

*Psicólogo, psicodramatista, integrante do IPPGC

 

índice

Outras edições

 





Brasil, quarta, 20/08/2008


Última atualização: 13/08/2008


5 pessoas on-line
  © 2006-2010 - FEBRAP - Todos os direitos reservados.
Home Contato Carrinho Topo