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Quase finalizando o mandato, estamos fazendo um balanço dos resultados obtidos nesta gestão. Analisamos os projetos que vem sendo implementados, assim como as reformulações necessárias nos vários programas. Estamos também iniciando o processo sucessório na Diretoria Executiva. Uma das gratas surpresas foi constatar a grande atividade dos psicodramatistas, que vem ampliando seus campos de trabalho, expandindo as fronteiras do psicodrama denominado aplicado, pedagógico ou educacional, com uma grande diversidade de projetos em desenvolvimento. Atendendo a demanda crescente, temos buscado incentivos e patrocínios para subsidiar intervenções psicossociais, visando trazer visibilidade para o potencial transformador de nossa metodologia. Estamos organizando Comissões com os interessados em desenvolver projetos de captação de verbas junto a entidades governamentais e privadas. Nos vários anos de funcionamento da Câmara de Ensino e Ética, identificamos a necessidade de implementar avanços para a qualificação do psicodramatista. Em 1999, no VI Encontro Nacional de Professores e Supervisores, buscamos um novo formato para as discussões necessárias de temas como ensino da ética, currículo mínimo para os cursos de formação, formação do professor e supervisor. Agora colhemos os frutos destas discussões e de tantas outras. Estamos esperançosos de que em breve possamos atingir um dos grandes objetivos desta gestão, o reconhecimento pelo Ministério da Educação e Cultura de nossos cursos de formação. Atendendo a um antigo anseio da comunidade psicodramática de maior participação no delineamento do eixo formador dos Congressos Brasileiros, convidamos os participantes da Comissão Organizadora Permanente do Congresso para iniciarem o levantamento de dados necessários para que possam apresentar um anteprojeto para o próximo, o 13°, previsto para 2002. Esta Comissão foi agregada ao Estatuto da FEBRAP em 1998 e pretendemos que se transforme numa instância política de gestação dos nossos Congressos, trazendo através de seus Representantes Regionais, uma feição bem brasileira ao nosso grande evento, onde todos nós, de norte ao sul, possamos nos reconhecer. A FEBRAP tem sido procurada para informações e pedidos de filiação. Um grande diferencial de nossa federação é a rede de profissionais preparados para o trabalho com grupos, em diferentes contextos, que atinge a maioria dos estados brasileiros. Pretendemos ampliar nosso quadro de federadas, de maneira a que possamos estar representando cada vez mais as diferentes tonalidades do Psicodrama brasileiro e do território nacional.No cenário internacional já somos reconhecidos como representantes do Psicodrama brasileiro. Participaremos de uma reunião da Seção de Psicodrama da Associação Internacional de Psicoterapia de Grupo (IAGP), em Israel, com representantes do mundo todo. Pretendemos apresentar nossas conquistas e nosso distanciamento decorrente da língua portuguesa. Nesta ocasião também estaremos apresentando a proposta brasileira para sediar o próximo Congresso Internacional da IAGP, em 2003. Finalizamos convidando todos os interessados em participar deste grupo que procurem a Diretoria da FEBRAP. Queremos apoiar uma chapa representativa dos anseios de maior profissionalização e visibilidade crescente, em que a política será valorizada na busca do objetivo maior deste grupo que é o de ocupar um lugar de destaque merecido no cenário científico nacional e internacional. Heloísa Junqueira Fleury Presidente da FEBRAP Durante a elaboração deste noticioso, meu desejo era que ele conseguisse transmitir um flash do momento de expansão do Psicodrama Brasileiro. Além do Jornal Em Cena, temos utilizado outras formas de comunicação com os associados como a Revista Brasileira de Psicodrama, editado por Wilson Castelo de Almeida, e através de nosso site onde ocorre o Debate/ FEBRAP moderado por Laurice Levy e o Boletim Informativo que tem a colaboração de Fátima Fontes. O Jornal, criado durante a gestão de José Carlos Landini, em 1984 (desde então passou por diversos formatos), apresenta Altenfelder com o tema "Psicodrama e Medicação", José Fonseca escreve sobre a IAGP e Madalena Redher sobre o 1º mestrado profissionalizante em Psicodrama.Em junho, René Marineau, psicodramatista canadense professor convidado do curso de Psicodrama Pedagógico das Faculdades Padre Anchieta de Jundiaí - SP, esteve dirigindo atos psicodramáticos com um grande grupo e participou da Mesa Redonda: "Psicodrama: possibilidades e perspectivas para o futuro" na qual também estavam José Fonseca, Valério Arantes, da UNICAMP e Sérgio Perazzo. Dada a peculiaridade, reproduzo a fala de Sérgio. Complementando, além da palavra da Presidente, no Dito e Feito, as demais diretorias também se expressam. O espaço da edição é curto para representar todo o flagrante desenvolvimento psicodramático, e outras matérias ainda ficaram de fora. (e não posso deixar de lembrar que o XII Congresso cada vez mais se aproxima). Abraços. Carlos Borba Diretor de Comunicação e Divulgação A Reunião da Câmara de Ensino e Ética, realizada em São Paulo em junho, abordou e aprofundou discussões sobre Currículo Mínimo para os Cursos de Formação de Psicodramatistas, a questão da psicoterapia como uma exigência na formação, o papel do Professor e do Professor Supervisor de psicodrama.Na reunião com a Diretoria Executiva e Representantes Regionais foi apresentado o estudo da Comissão de Representatividade, que lança uma pesquisa a todos os federados. A constituição de Comissões de Estudo para trabalhar com temas que estão sempre em pauta, quando se trata de formar psicodramatistas ou de participação na Federação, aconteceu no primeiro semestre deste ano, mostrando-se uma dinâmica extremamente eficiente e produtiva, permitindo um avanço significativo na abordagem das questões. Apresentaram o resultado do estudo nas diferentes reuniões realizadas e na mesma ocasião no Fórum de Discussões Políticas. O próximo passo será uma discussão abrangente em todas as federadas, subsidiadas pelo material elaborado nas comissões. Espera-se que, com as contribuições de todas as escolas, ao final deste ano tenhamos uma sistematização que atenda a todas as federadas. Será uma forma de participação efetiva na construção e atualização do processo de ensino do psicodrama. Um grande passo foi dado para que muitas perguntas sejam definitivamente respondidas e novas perguntas surjam, garantindo o avanço na qualidade do trabalho que vem sendo realizado pelas escolas de psicodrama da FEBRAP. Teresinha Gaiolla, Diretora de Ensino e Ciência
O profissional que utiliza o psicodrama como forma de tratamento do sofrimento psíquico não pode ignorar ou olhar de maneira preconceituosa a evolução e o progresso no tratamento psicofarmacológico da doença mental, devendo lançar mão, quando necessário deste recurso com seus pacientes. A partir da década de sessenta, a neurociência evolui, descobrindo medicamentos para a doença mental, revolucionando as formas de tratamento, tanto em relação ao paciente psiquiátrico internado como nos que procuram os consultórios de psicoterapia.Em 1891, Paul Ehrlich observou os efeitos antimaláricos do azul de metileno, um derivado fenotiazínico. Mais tarde as fenotiazinas foram desenvolvidas pelas suas propriedades anti-histamínicas. Em 1951, Laborit e Huguenard administraram, devido ao seu potencial anestésico, uma fenotiazina alifática, a clorpromazina, para pacientes durante cirurgias (SHEN, 1999).Laborit, em 1952, utilizou a clorpromazina em soldados gravemente feridos para transportá-los do campo de batalha ao hospital. Freqüentemente, estes soldados entravam em choque e morriam. A reação do organismo, nestes casos, era excessiva, não tanto pela gravidade das lesões, mas pela incapacidade do organismo de suportar suas próprias reações. Laborit procurou diminuir os efeitos desta síndrome geral de adaptação, combatendo a temperatura alta com lençóis molhados e aplicando a clorpromazina, assim atenuando as reações orgânicas exageradas e permitindo o tratamento das feridas, chamava este procedimento de "hibernoterapia" (SONENREICH et al., 1999a).Em 1952, Delay e Deniker sugerem o emprego da clorpromazina para combater a agitação psicomotora, visando atenuar a reação do organismo em face da agressão de agentes externos ou internos e à resposta inadequada do indivíduo. Era a reação do organismo o alvo, não a eliminação, neutralização ou substituição de agentes patogênicos. Pensa-se no mecanismo neurofisiológico para realizar o tratamento, este é o princípio que separa os neurolépticos da sangria ou da heléboro (SONENREICH et al., 1999a).A descoberta da clorpromazina inaugura a psicofarmacologia e a partir de 1955, passa a ser empregada em larga escala nos hospitais psiquiátricos, causando uma revolução farmacológica no tratamento da doença mental e nas características do hospital psiquiátrico. Tratava-se do primeiro medicamento efetivo no combate à psicose. Entre 1954 e 1975, cerca de 15 drogas antipsicóticas foram introduzidas nos Estados Unidos e cerca de 40 em todo o mundo (SHEN, 1999).Na década de 60 surgem os antidepressivos tricíclicos e os tranquilizantes benzodiazepínicos, estes últimos amplamente usados pela população, chegando serem os medicamentos mais receitados tanto por clínicos como por psiquiatras, até a indústria farmacêutica arrumou uma maneira de vender estes medicamentos sem a necessidade de receita médica, criando os chamados anti-distônicos, que eram remédios com a mesma dosagem de benzodiazepínico, acompanhados de ergotamina e propantelina, hoje em dia a venda deste medicamento não dispensa a receita médica controlada. A pesquisa em neurociências é cada vez mais incrementada, são descobertos vários medicamentos, dentre eles os antidepressivos inibidores da recaptação da serotonina, da noradrenalina (ISRS e ISRN), e ainda os inibidores específicos da recaptação da serotonina e noradrenalina (NaSSA). Aparecem outros neurolépticos derivados da fenotiazina. Sintetiza-se, em 1958 a butirofenona e seus derivados, como o haloperidol. Surgem antagonistas específicos de receptores D1/D2: sulpirida, pimozida etc. São lançados novos neurolépticos, atípicos, como: clozapina em 1990, risperidona em 1994, olanzapina em 1996 e quetiapina em 1997 (SHEN, 1999). Os laboratórios buscam neurolépticos cada vez mais potentes quanto à atividade bloqueadora de receptores dopaminérgicos e 5HT2, para o tratamento das psicoses, e com menor número de efeitos colaterais.No tratamento de pacientes psicóticos é cada vez mais privilegiada a farmacoterapia, os avanços das pesquisas indicam esta direção. O hospital psiquiátrico é influenciado por este progresso, sendo que, raramente nesta década, um paciente permanece internado por mais de 6 meses. A média de permanência em internação integral situa-se, atualmente, entre 15 a 20 dias. A eficácia dos novos tratamentos trouxe como conseqüência uma modificação no panorama do hospital psiquiátrico e do atendimento psiquiátrico de modo geral, incluindo as psicoterapias. Hoje em dia não se fala mais de psicoterapia interminável, a imprensa divulga à população os progressos, e a população que com algum conhecimento na área vai ao médico, solicitando algum remédio que "reponha" a substância que está faltando no cérebro, na década de sessenta "Freud explicava", neste milenium "Prozac explica".As psicoterapias breves são amplamente utilizadas acompanhadas quando necessário de medicação, isto abrevia o sofrimento e o tratamento com grandes vantagens aos pacientes. O homem passa a ser compreendido de uma maneira holística.Para a elaboração do tratamento da doença mental deve-se também pensar em termos de mecanismos neurofisiológicos. Não acreditamos que tratar sintomas-alvo, seja uma boa opção terapêutica pois, leva, freqüentemente, à polifarmácia com graves prejuízos ao paciente. Neste tipo de conduta, a cada sintoma corresponde um medicamento que muitas vezes interagindo com outro tem ações antagônicas no sistema nervoso central (SNC). Diagnosticar por soma de sintomas pode fazer, por exemplo, com que um mesmo paciente receba concomitantemente: ansiolítico para ansiedade, antidepressivo para sintomas depressivos, neuroléptico para sintomas psicóticos, antiparkinsonianos para sintomas extrapiramidais, hipnótico para insônia, etc. Estas associações medicamentosas seguramente são prejudiciais ao paciente, e não contribuem para sua melhora.Uma das características do ser humano é sua capacidade de transcendência, que significa "estar com o outro" dentro de um sistema. O que mantém o sistema organizado, é a capacidade que a pessoa tem de perceber corretamente o "outro", em termos psicodramáticos; de estabelecer relações télicas, construindo vínculos que favoreçam a estrutura própria, ou seja, do psiquismo. É uma das formas de construção de referências internas. O tratamento psicoterápico readapta as atividades neuronais, reestruturando a comunicação, a capacidade télica e restabelecendo a possibilidade em estabelecer escolhas. O psicodrama, promovendo:1. a ab-reação emocional (catarse, liberação de afetos acumulados);2. insight cognitivo (autocompreensão, consciência, integração, reestruturação perceptiva);3. estimulando relacionamentos interpessoais (aprendizado por meio do encontro, tele e pesquisa da transferência/contratransferência), a aprendizagem através do comportamento e da ação, e a simulação imaginária (comportamento "como se", jogo), age no indivíduo, tornando-o capaz de promover mudanças em sua vida, devolvendo a sensação de liberdade, aumentando suas possibilidades de escolha, contribuindo em seu processo terapêutico, o que resultará na liberdade, que é a finalidade do tratamento psiquiátrico em sentido amplo (KELLERMANN, 1998).O psicodrama de grupo tem a vantagem, de além de empregar métodos de ação, de se utilizar as abordagens educativa, interpessoal e psicodinâmica.Na abordagem educativa, o paciente compartilha seus sintomas, tem informações médicas a respeito deles e do tratamento medicamentoso, com seus benefícios e efeitos colaterais. Alguns pacientes apresentam sintomas que não remitem com os medicamentos, por exemplo, alucinações, compartilhando no grupo, com pessoas que apresentam os mesmos sintomas, aprendem maneiras de conviver com estas seqüelas. Nesta abordagem, o paciente tem ainda informações sobre a doença mental, seu curso e possibilidades de tratamento.Em relação à abordagem interpessoal, o paciente tem a oportunidade de viver, seus comportamentos mal-adaptados e nessa interação, no aqui-agora, com os outros membros do grupo, poder corrigi-los, além de entender como a presença destes comportamentos influencia o seu cotidiano. Suas condutas bizarras podem vir a ser compreendidas e vistas como tal, pelo próprio paciente e pelo grupo. O psicodrama de grupo, com a dramatização, adquire um aspecto lúdico, favorecendo a interação, os relacionamentos e contribuindo para diminuir a sensação de isolamento. Um dos grandes benefícios da dramatização, também é trazer o passado e suas vivências para o aqui-agora, e neste trabalho, o paciente, junto com o grupo, ir em busca da compreensão de sua doença e seus sintomas.Por todos estes aspectos, considero o método psicodramático completo, integrador e ideal para a aplicação no paciente psiquiátrico, aliado, quando indicado, ao tratamento farmacológico.Luís de Moraes Altenfelder Silva Filho* *Psiquiatra, Psicodramatista e um dos autores do Livro: " Psiquiatria: Propostas, Notas e Comentários - Lemos Editorial - São Paulo, 1999" A Diretoria de Administração e Finanças busca uma melhor qualidade de atendimento ao público que se dirige à secretaria da FEBRAP, tendo na Bel e na Daniela uma eficiente recepção, que se estende à toda a Diretoria Executiva e eventos realizados pela FEBRAP. A planilha financeira mantém um equilíbrio entre receita, despesas e projetos, atendendo a todas as diretorias. O projeto de atualização dos trabalhos para as titulações em psicodrama está em sua fase final. Temos certeza de que está sendo feito um trabalho que engrandece o psicodrama, profissionaliza a FEBRAP e prepara o caminho para mudanças necessárias nas próximas gestões. Maria Sílvia Junqueira WolffDiretora de Administração e Finanças.
Há mais ou menos dois meses recebi um convite de casamento da filha de um velho amigo meu que, há muitos anos, foi morar numa cidade distante.Fui tomado de emoção, pois, a noiva, numa época em que eu não tinha filhos e achava que não podia tê-los, então com três anos de idade, brincava alegremente comigo, enchendo a minha casa com a sua infância quanto vinham me visitar. Comprei uma gravata nova, desci do avião e me postei nas primeira filas junto à passagem central da igreja do tempo do Brasil colônia, a mesma que, há 32 anos, compareci como padrinho de casamento de meu melhor amigo de infância e que ficava localizada nos fundos do hospital da faculdade onde estudei e me formei, fazendo parte integrante de um cenário cotidiano que marcou profundamente a minha vida. Vivia um misto de saudade, de expectativa e de alegria, num sentimento de abertura de um estado de compartilhamento, presente nos meus olhos, na disposição do abraço, no ritmo do meu coração. Depois de um longo atraso, a cerimônia começou, se alongou e terminou, do mesmo jeito que os últimos quatro casamentos a que compareci no ano passado, ou seja, estritamente regida por uma nova liturgia extra-Vaticano . O coro não se contentava com um sensível e delicadamente sonoro quarteto de cordas, muito recheado que estava de metais wagnerianos triunfistas, mais para trombetas do Apocalipse do que para sussurros angélicos.Em vez do frufru de saias de tias e amigas nervosas à guisa de introdução, a parafernália de fios e refletores dos vídeo-operadores. A cada movimentação na porta da igreja, uma torção de pescoço que descobria, primeiro, uma legião de padrinhos de lotar a igreja, todos imóveis aguardando as ordens de marcha do diretor de TV.Só depois de completado o percurso até o altar, o câmara e os iluminadores em marcha-ré, é que apontava a troupe seguinte: as damas e daminhas de companhia na mesma trajetória tecnologicamente orquestrada, só começando a andar ao entrar em foco para a posteridade. Somente após longos "takes" e tomadas de cena, entrava, enfim, a noiva, protagonista que seria de uma forte emoção coletiva, transformada em imagem televisionada para uma contemplação posterior eletrodoméstica. Descobri naquele momento, em que minhas sensações e sentimentos se desaqueciam, que eu não tinha sido convidado para um casamento, mas para um "set" de filmagem, algo distante da consciência de todos nós, embora definitivamente incorporado em nosso comportamento coletivo. Talvez o próximo convite me viesse através da Internet musicado por trombetas.Por isso mesmo, prever o futuro do psicodrama não deixa de ser um exercício inútil de futurologia. O futuro do psicodrama é o seu presente e o modo como regemos a sua liturgia. Disto dependerá a direção dos ventos capazes de enfunar ou não as suas velas no sentido de novos descobrimentos.Eu me sinto no psicodrama, muitas vezes, como naquele casamento, quando a aparência se sobrepõe à essência. Ou sempre que nossa verdade psicodramatista e poética não sofre a re-co-criação da conserva. Anseio pelo dia em que Moreno seja mais citado e mais incorporado, de modo que o seu sopro mais mil sopros de tantos mil outros psicodramatistas sejam naturalmente parte de meu sopro vital.Ouço psicodramatistas perguntarem, até em congressos, qual o destino da psicoterapia grupal ou, mais especificamente, sem mencioná-la, da psicoterapia psicodramática de grupo, em vez de, simplesmente, realizá-la, exercitá-la, teorizá-la, praticá-la, incentivá-la entre seus alunos, a única forma de perpetuá-la consistentemente e, portanto, bem divulgá-la por seus resultados concretos, única via capaz de fortalecer a crença em sua eficácia e pertinência.Um fatalismo de Corão com que se aceita, sem resistências, como imposições individualistas de uma ordem econômica de um mundo cada vez mais globalizado, o isolamento humano e seu consumismo empobrecedor, deixa escapar justamente as contradições homem X grupo, solidão X compartilhamento, conserva X criação/co-criação, o "crème de la crème" do trabalho psicodramático em suas vertentes terapêutica, educacional e comunitária.Leio afirmações de psicodramatistas desacreditando do desenvolvimento e até a existência da teria do psicodrama, justificando uma leitura psicanalítica ou outra qualquer, porque insistir nos conceitos psicodramáticos seria tentar tirar leite de pedra, em vez de, por exemplo, contribuir para a construção de uma teoria da fantasia e da imaginação, ainda incipiente no psicodrama, e perfeitamente articulável à teoria da espontaneidade-criatividade, à teoria de papéis e à socionomia e seus ramos.Luto contra a insistência em se reduzir a teoria do psicodrama a uma terapia psicodramática de desenvolvimento e a uma psicopatologia "psicodramática", que, evidentemente, além de reduzir a sua visão teórica, ignorando completamente a articulação entre suas partes, não dá conta de explicar consistentemente a prática psicodramática educacional e comunitária.O movimento relativamente recente, pelo menos no Brasil, de incrementação do teatro espontâneo criado por Moreno, veio lançar uma aragem de renovação e uma certa confusão conceitual ao psicodrama praticado entre nós.Se, por um lado, este movimento veio se opor, com muita propriedade, aliás, à ênfase excessiva dos anos oitenta na psicoterapeutização do psicodrama brasileiro, seu grande mérito foi o de recuperar a noção de que toda e qualquer modalidade de psicodrama tem origem no teatro espontâneo moreniano.Por outro lado, sendo a sua proposta em suas apresentações práticas, apenas a de uma produção cultural com propósitos meramente criativos e estéticos, a falta de compreensão de sua finalidade acabava por reduzi-la a uma espécie de psicoterapia de segunda categoria.Na verdade, até a formulação de uma nova nomenclatura, proposta por Aguiar, em que o psicodrama passa a ser visto como uma forma de teatro espontâneo, custou-se a discriminar formas diferentes, terapêuticas e "não terapêuticas", vamos dizer assim, do teatro espontâneo.Numa outra direção, uma maior penetração do psicodrama nas universidades também acabou levando o discurso teórico acadêmico para, em alguns momentos, uma rigidez excessiva do psicodrama, contrariando, às vezes, uma terminologia universalmente consagrada, um transplante sem anestesia. Assim, o psicodrama, latu sensu, vem sendo chamado de teatro espontâneo pelos "teatrólogos espontâneos" e de socionomia por alguns "acadêmicos".Tanto num caso como no outro, seria o equivalente a chamar, nesta altura dos acontecimentos, Coca-Cola de Sprite. Mudar o nome da marca, criando uma enorme confusão entre seus consumidores. O que quero dizer com isso, é que a discussão de tópicos fundamentais da teoria e da prática psicodramáticas nem sempre leva em conta a transformação da essência de um conceito a partir de sua historicidade. A multiplicação de termos novos ou a variação classificatória ou nomenclatural nem sempre tem em sua base em estudo aprofundado, não raro resvalando pelo viés da falta de informação ou da pseudo-consagração vaidosa do seu autor. Não é atoa que muitas vezes temos a sensação que o outro nunca tem razão quando expõe as suas idéias sobre psicodrama. Eu é que tenho. E isto num meio em que se prega o encontro. Imaginem se não pregasse!Reaprender a ouvir, em todos os sentidos, antes de falar, para que nossa discussão seja sinônimo de crescimento. Sem isso não há futuro para o psicodrama. Politicamente tal situação fica bem patente, no que diz respeito ao Brasil, no plano internacional. Apesar de nos constituirmos como um país, nunca é demais repetir isso, com aproximadamente 3 mil psicodramatistas que produziram nestes últimos 30 anos cerca de 90 livros e mil artigos, além de incontáveis monografias e teses não publicadas, e que possui uma federação nacional que congrega 41 instituições que dão formação regular de psicodrama, continuamos a não ser ouvidos pelo mundo anglo-saxão, principalmente.Não são poucas as manifestações de indiferença e de arrogância a que temos sido submetidos no correr de todos estes anos, como se não tivéssemos nada a dizer ou nada a ensinar.Não é surpreendente, por isso mesmo, o fortalecimento do bloco ibero-americano que tem se insurgido quanto a isso e que até hoje não tem os seus livros traduzidos para a língua inglesa, uma excelente forma de conseguir ser ouvido. Enquanto este estado de coisas permanecer, fica difícil atingir um patamar razoável de um verdadeiro compartilhamento psicodramático.Não temos um General De Gaulle gritando, como em 1967, "Vive le Québec libre", causando um imenso mal-estar no meios diplomáticos, a ponto de aumentar a fervura das diferenças sentidas pelos franco-canadenses, que puderam ser melhor ouvidos, em francês e em inglês, apesar de terem votado "não" pelo separatismo, duas vezes, entre Trudeau e o conservador Mulroney.Para mim, este é o sentimento de uma verdadeira cerimônia de casamento. Ouvir, falar e compartilhar a essência profunda do psicodrama. O que daí decorre é conseqüência natural deste processo do presente. O resto é exercício vazio de futurologia.Se assim não for, estaremos condenados a repetir sem fluidez os movimentos estereotipados de um "set" de filmagem. Não passaremos de imagens vazias e solitárias de nós mesmos. Não teremos vivido um casamento.São Paulo 28/05/00Sérgio Perazzo Psiquiatra, psicodramatista, professor-supervisor da Sociedade de Psicodrama de SP e daPUC- SP, também autor de "Fragmentos de um olhar psicodramático" - Ed. Ágora - SP - 1999
Em fevereiro deste ano teve início o curso Latu-Sensu e Mestrado Profissionalizante em Psicodrama (Stricto-Sensu), nível de equivalência curricular. Ou seja, profissionais psicodramatistas professores-supervisores e os discentes estão em fase de conclusão de suas monografias, faltando apenas os créditos teóricos-práticos, exigidos pelo programa: Metodologia da Pesquisa Científica, Seminário de Linhas de Pesquisa (Epistemologia do Psicodrama) e Seminário de Orientação para Dissertação.O grupo tem 45 participantes dentre eles pessoas de renome na carreira do psicodrama, marcando mais uma etapa de pioneirismo na longa jornada de 30 anos de formação da ABPS. Nessa turma encontramos, reencontramos discentes e docentes de quase todas as federadas de Psicodrama de São Paulo e de outros estados. Em julho começamos a organizar os projetos de pesquisa para mostrar à comunidade científica o resultado da aplicabilidade do psicodrama nas mais diversas áreas de atuação. Escolhemos o mestrado profissionalizante em psicodrama - Stricto-Sensu, por encontrar no mesmo a identidade, o aprofundamento teórico-prático e o reconhecimento do profissional psicodramatista. Madalena Cabral RehderPsicóloga, psicodramatista, presidente da ABPS O Congresso Brasileiro de Psicodrama vem sendo preparado para garantir um excelente nível científico e um ambiente acolhedor aos Psicodramatistas, e àqueles a quem desejamos conquistar ou resgatar. As atividades serão diversificadas: escritos psicodramáticos, temas em debate, atos sócio-psicodramáticos, protocolos de Moreno, a prática em discussão. Muitas novidades e parcerias interessantes. Contávamos, em junho, com mais de 500 inscritos, o que aumenta nossa responsabilidade, ao mesmo tempo em que nos alegra. Consulte o 3º folder, já em circulação, e se inscreva, para não perder este Encontro que será em Águas de São Pedro, de 8 a 12 de novembro próximos. Maiores informações, faça contato com Cerne Eventos, pelo telefone (11) 212 7904 ou pelo fax: (11) 813 9353. Até lá.Carmita Abdo Diretora de Eventos Culturais, psiquiatra, psicodramatista, presidente do Congresso Brasileiro de Psicodrama. Moreno criou em seu percurso profissional uma série de associações: a Sociedade Americana de Psicoterapia de Grupo e Psicodrama, em 1942, que realizou neste ano sua 58a reunião anual; a Associação Sociométrica Americana, em 1945; e, o que interessa particularmente nesta informação, o Comitê Internacional de Psicoterapia de Grupo, em Paris, em 1951, o Conselho Internacional de Psicoterapia de Grupo, em Milão, em 1963, e finalmente a incorporação internacional da Associação Internacional de Psicoterapia de Grupo (IAGP), em Zurique, em 1973. O processo completo de fundação levou, portanto, mais de vinte anos, de 1951 a 1973. Moreno intuía a necessidade de organizar o nascente movimento das psicoterapias grupais. Em seus últimos anos de vida, ele reconheceu que mais importante que suas contendas, primeiro com a psicanálise e depois com S. R. Slavson, a respeito do pioneirismo na psicoterapia de grupo, seria utilizar sua liderança no sentido de criar uma organização em que todas as tendências da psicoterapia grupal estivessem representadas. Na ocasião, Moreno estava com 84 anos e vinha apresentando pequenas hemorragias cerebrais. Não era a melhor condição para uma pessoa idosa viajar, mas ele insistiu em ir a Zurique. Zerka Moreno conta que foi a última viagem de J. L. ao exterior; ele morreu nove meses depois. Ela acrescenta que, a bem dizer, a IAGP foi seu último "filho". No dia da fundação havia um clima de antecipação no ar. Os arranjos políticos tinham chegado a bom termo. Fora decidido que devesse haver um equilíbrio político entre analistas de grupo e psicodramatistas. Os nomes para o primeiro comitê executivo foram discutidos. Samuel Hadden (Estados Unidos) foi o primeiro presidente, Anne Ancelin Schützenberger (França) a secretária internacional. Moreno recebeu o título de fundador e presidente honorário. A primeira reunião da incorporação internacional da IAGP ocorreu no Grande Hotel Dolder Berg, em Zurique, no final de agosto de 1973. Grete Leutz narra que Moreno, sentado à cabeceira de uma longa mesa, presidiu a sessão. Pelo menos doze pessoas estavam sentadas ao seu lado. Olhando o sol da tarde, ele não falava muito, mas sorria com benevolência. Estava muito presente e transparecia satisfação.Como comentado, foi a última viagem internacional de Moreno e, provavelmente, sua última apresentação pública. Ao retornar a Beacon (EUA), escreveu uma carta aberta aos psicodramatistas que talvez tenha sido também seu último texto publicado. Estava passando o bastão, consciente da missão cumprida. Podemos interpretar suas últimas palavras como uma despedida e um apelo à continuidade de seu trabalho junto à comunidade internacional de trabalhadores grupais. Nessa carta Moreno comenta, entre outras coisas, que a IAGP era um dos principais objetivos que vinha tentando atingir desde 1951 e que essa concretização coroava o trabalho de sua vida.José Fonseca Psiquiatra, psicodramatista, também autor de "Psicoterapia da Relação - Ed. Ágora - SP- 2000
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