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Jornal Informativo da FEBRAP - Federação Brasileira de Psicodrama
Ano 15 - nº4 - Outubro/Novembro/Dezembro - 1998
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Outras Edições
Editorial
Estamos chegando ao fim da nossa jornada. O biênio
de nossa gestão que está terminando foi um período de
muito trabalho mas, também, de muitas satisfações e alegrias. Pudemos aprender, crescere de§epvolver novas
habilidades. Valeu e valeu muito essa eperiência, pois foi através dela que tivemos bons compartilharnentos, colaborações e críticas c9nstrutivasquenos fizeram rever e
aprimorar nossas ações na DICOM.
Tivemos como nossa maior meta ampliar a divulgação
do Psicodramae manter a troca de informação entre as
federadas. Expandimos nossa rede de comunicação, ampliamos nosso cadastro de distribuição do Em Cena que
hoje é tarnbétn distribuído internacionalmente nos países
de língua espanhola.
Foi uma imensa satisfação para mim e para toda a minha equipe de colaboradores levar esta tarefa à frente,
nesses dois anos. Esperamos ter conseguido atingir as
metas e as expectativas em nós depositadas, tentamos
cumpri-las, concretizando-as dentro das nossas disponibilidades de recursos humanos e financeiros.
Sabemos que sempre haverá muitas coisas ainda a
serem feitas, que nossa contribuição é uma pequena parcela que precisará ser continuada e aperfeiçoada nas demais gestões da FEBRAP.
Neste número do Em Cena você poderá ler na coluna
"Dito &Feito" as principais realizações desta gestão.
Confira como foi o 11° Congresso Brasileiro de
Psicodrama e 4° Encontro Latino-Americano de
Psicodrama, através dos artigos que ganharam prêmios
de melhores Escritos Psicodramáticos e das opiniões enviadas por congressistas.
Mantenha-se informado sobre o próximo grapde evento, o II Congresso Ibero-Americano, através do Encarte,
vai valer a pena você participar desde agora.
O Psicodrama estende sua ação às organizações, verifique essa proposta no artigo logo abaixo, essas são considerações importantes para a expansão da nossa metodologia.
Encerrando este editorial, gostaria de tornar público os
meus mais sinceros agradecimentos aos meus colaboradores diretos da DICOM, Ma do Carmo, Lilian, Nice,
Laurice, Florinda e Ana; que cotn tanta capacidade e amizade, num esforço de equipe, permitirâm que chegássemos ao final desta jornada, cumprindo nossas propostas.
Obrigada a todos os demais colaboradores de nossa
comunidade psicodrarnática que nos auxiliaram a, cada vez
mais, acreditarmos que nossos sonhos e ideais podem se realidade.
Maria Cecília Veluk dias Baptista
Diretora de Divulgação e Comunicação
Índice
Getão 97/98 na balança
Antes de avaliarmos nosso trabalho neste biênio, gostaríamos
e expressar, publicamente,
nossos agradecimentos a todos que
conosco fonnaram essa grande equipe.
Estamos convencidos da importância estratégica da Diretoria enquanto espaço político e administrativo essencial para o desenvolvimento da Federação e, conseqlientemente, para o
Movimento Psicodramático brasileiro.
Apesar do tempo relativamente curto de mandato, buscamos colocar em
prática nossas concepções, planejamentos e projetos, dinamizando nossas possibilidades de crescimento e expansão.
Muitas coisas foram enfrentadas,
muitas outras renovadas e muitas outras ficaram por fazer. O reconhecimento da não-resolução poderá servir
de ponto de partida para a nova gestão.
Sabemos que cada gestão coloca
como prioridade estes ou aqueles aspectos que considera deficiente ao assumir seu trabalho. Sabemos também
que uma vez definido o aspecto a ser
prioritário, outros acabam às vezes
não tão cuidados.
Nesta gestão priorizamos organizar,
dar infra-estrutura para efetivação de
projetos, administrar os recursos disponíveis e conseguir novos recursos.
E importante ressaltar que por sugestão da Câmara de Ensino e Ética e
aprovado em Assembléia, foi obtida a
regularização pelo "notório saber" dos
nossos psicodramatistas iniciadores
que tinham uma situação que dificultava novas certificações e titulações.
As apresentações no Congresso, "Palavra da Presidente" e o painel
"Expansão do Psicodrama Brasileiro", firmam e dão consistência às nossas
realizações.
Palavra da Presidente
A FEBRAP se lançou como uma organização empresarial, forte, com
recursos financeiros disponíveis para seus projetos e responsiva às demandas da atualidade.
A maior conquista foi a expansão de seus horizontes ao eliminar distâncias por meio de sua home-page, correio eletrônico, criação do jornal Em
Cena e o aprimoramento de sua rede de comunicação. A nível nacional, o debate eletrônico se propõe a aproximar psicodramatistas, sem limites de fronteiras, no compartilhar de suas experiências profissionais, favorecendo o e
seu desenvolvimento científico. Inter-nacionalmente expandiu a troca de informações entre psicodrarnatistas do
mundo todo, posicionando a FEBRAP
como interlocutor respeitado para questões de âmbito internacional.
Gestou encontros científicos de
expressão, alguns inéditos como o IV
Encontro Latino-Americano de
Psicodrama, II Congresso Ibero-Americano de Psicodrama e o I Encontro Brasileiro de Psicoterapias
Grupais.
A expansão não poderia ficar unicamente com interlocutores externos,
sendo por isso um dos objetivos maiores a valorização das federadas. Buscamos lançá-las por meio do site gratuito em nossa home-page, além de
divulgá-las em folders e congressos e
estar privilegiando o contato pessoal e
particular com as regionais.
Projetar o Psicodrama mundialmente exige desta federação não só a
modernidade em seus mecanismos de
comunicação, mas uma base de informação, garantindo a prontidão e qua1idade destes movimentos.
Alimentar suas federadas com informações atualizadas, assim como a
Diretoria Executiva com os produtos
das gestões anteriores, exigiu a organização de seus arquivos, levantamento
de acervos históricos e o reconhecimento da atuação de seus formadores
por meio da regularização de titulações.
Assim, estamos atualizando a cena
da nossa instituição. A montagem e
organização deste congresso, o último
deste milênio, nos propicia um encontro como nossa história, nossos fundadores e formadores, nossas utopias e
nossa realidade política, econômica,
ética, social e tecnológica. É tempo de
grandes transformações e enormes
possibilidades ao darmos uma dimensão qualitativa de avaliação à nossa
ação e atuação. É tempo de construir
ações, pois "mais importante que a ciência é o seu resultado. Uma resposta
provoca uma centena de perguntas."
Vivemos nossa experiência, nesta
Diretoria, com muitas indagações e algumas conclusões que queremos deixar para nossos futuros dirigentes no
sentido de melhores decisões e reflexões:
.A valorização do comprometimento
dos representantes nas várias instâncias da FEBRAP e, principalmente,
o fortalecimento de relações férteis
entre federadas e Diretoria Executiva;
.A atenção aos avanços possíveis por
meio da implementação de nossas regionais;
.Atualização e modernização do ensino do Psicodrama e a qualificação
constante de nossos formadores; e
.A importância da escolha de nossos
dirigentes, a partir da rotatividade dos
membros da Diretoria Executiva e da
Câmara de Ensino e Ética.
Marlene Magnabosco Marra
Presidente da FEBRAP
Índice
Um congresso inesquecível
A magnífica Suíça brasileira acolheu, entre 4
a 7 de novembro, um grupo pitoresco: 980
psicodramatistas procedentes de 12 países
da América Latina. Trocaram por alguns dias a
exaustão do calor, as tormentas tropicais e o frio
congelante, pela brisa suave e amena de Campos
do Jordão. Em seus ares revitalizantes encontraram a terapêutica e necessária energia que alimentou uma reunião muito especial.
Vieram sós, aos pares, grupos, de moto, de carro, de avião. Buscavam alguma coisa: uma novidade, um ato criativo, um encontro espontâneo. O pre-ârnbulo, com a presença de Zerka Moreno, fez com
que as surpresas se antecipassem em um dia, dando a todos a certeza de que o espetáculo seria grandioso. A gentil contribuição de André Monteiro e
Edith Oliveira, na tradução simultânea, tornou possível a comunicação com a platéia. Dirigindo ou
desfraldando confidências de sua rica biografia,
Zerka irradiou energia e vitalidade às mais de 600
pessoas que participaram e a apludiram de pé.
A reunião dos presidentes da FEBRAP de todos
os tempos, na cerimônia de abertura, resgatou uma
nostalgia própria das reuniões familiares. Os olhares
se entrecruzavam com profundidade e não puderam
esconder a emoção quando Marlene Marra e Eveline
Ramos, com discursos apaixonados, revelaram o
valor da amizade, da fidelidade e da obstinação na
construção e na realização de grandes sonhos.
Sonhos que se tornaram coletivos. Uma legião
de sonhadores foi mobilizada nas coxias, preparando o evento por mais de um ano. Com cuidado, com
carinho, com atenção. Fazendo e desfazendo.
Construindo com paciência e dedicação. A mesma
mobilização que impregnou esse grupo irradiou desde o planalto central pela América afora.
Iniciamos o Congresso nos perdendo e nos encontrando nas salas de atividade. Os eventos grandes como os Jornais Vivos, os Axiodramas e os
Sociodramas, reuniram mais pessoas. Por um momento, durante o sociodrama da AIDS, o congresso deixou o espaço físico do hotel para ser realizado numa escola da cidade, junto com a comunidade. Em todos os momentos os métodos sociátricos
alinhavavam e davam um sentido grupal a tudo o
que se realizava.
Importante ainda o re-encontro histórico entre
psicodramatistas e seus antigos mestres, viabilizado
pelo Congresso na Conferência Magna. Presidida
por Wilson Castelo, com tradução simultânea de
Rosa Cukier, dela participaram: Iris Soares Azevedo, Antônio Carlos Cezarino, Pierre Weil, Dalmiro
Bustos, Zerka Moreno, Maria Alicia Romana, e
Anne Ancelin com um depoimento gravado em
Londres. Ovacionados calorosamente pela platéia,
compartilharam um pouco de suas experiências,
visões de mundo e perspectivas para o futuro. Em
suas falas mostraram diferentes caminhos, diferentes possibilidades, diferentes maneiras de se continuar fazendo Psicodrama.
A diversidade de opiniões foi acolhida com urna
pluralidade de atividades, o que possibilitou à platéia a
liberdade de escolha. Foram promovidos 246 atos científicos com a participação de 312 psicodrarnatistas
de diversos países, mostrando como atuanL Três Cursos para professores destacaram a preocupação da
Organização do evento com os psicodramatistas que
estão num momento mais adiantado no percurso.
Momentos especiais foram dedicados ao aquecimento para o II Congresso lbero-Americano que
será realizado em Águas de São Pedro -SP, em
abril de 99. Merece destaque o esforço feito pela
FEBRAP para manter acesa a chama do espírito
crítico e da iniciativa científica do psicodramatista.
Tais características têm produzido, ao longo do tempo, maior maturidade, melhor competência e maior
respeito ao Movimento Psicodramático.
Em todas as noites urna confraternização diferente. A diferença pôde ser apreciada e elogiada. Diferenças ideológicas, raciais, econômicas, de estilo, de
charme, de gosto. Ritmos variados congregaram o
calor humano nas festivas noites, dando um tom alegre e divertido ao adormecer. Dessa forma, as noites
foram curtas e o congressista levantava apressado
para não perder a próxima atualização de cena.
Mas e quanto ao futuro ? Alguém conseguiu se
desligar do sedutor aqui-e-agora e dedicar algum
tempo para pensar o depois de amanhã? A resposta é positiva. Desde as conversas informais nos corredores até os momentos mais sérios, o psicodramatista mostrou preocupação quanto ao futuro do movimento. O tema de um debate muito especial foi
exatamente o processo sucessório da FEBRAP.
Nesse espaço discutiu-se, principalmente, a necessidade de projetos, de planos e de novas realizações.
Enfatizou-se a importância da ocupação e apropriação do espaço institucional do psicodramatista e a
maior participação das entidades federadas no planejamento e na execução do futuro.
O Congresso mostrou a força do Psicodrama
latino-americano e brasileiro. De início ouvia-se falar em cenas ingênuas, comuns e cotidianas. Lugares comuns onde as pessoas se esbarram e não
sabem onde vão dar. Com o fechar das cortinas, há
a lembrança de cenas impressionistas, futuristas,
surrealistas. Lugares especiais onde brotam novos
sonhos. No conjunto, as cenas compõem o intenso
caleidoscópio humano do qual participamos.
Os anos mil e novecentos se despedem do Congresso Brasileiro de Psicodrama, deixando a certeza de que muito construímos e que juntos estaremos em breve, novamente e sempre, ATUALIZANDO A CENA!
Ciber-depoimentos:
Foi com imenso prazer que a FEBRAP
recebeu, através do seu Debate Eletrônico,
os seguintes e-mails.
@ "Belíssimo Congresso! Parabéns a todos que
organizaram, à FEBRAP, à Eveline que deu um
toque feminino tãolrndo ao Congresso. Um enorme cólo que cabia todos os participantes. A
finalização do Congresso foi muito criativa e
oportuna, mas eu queria parabenizar também a
todos os psicodramatistas anônimos, que desde
muito tempo fazem Psicodrama, que como combatentes de guerra permaneceram nos seus postos por tanto tempo. Outros tempos não tão cheios de glória, nem de tanto aconchego, mas que
não abandonaram suas idéias, seus sonhos, ainda que às vezes muito sofridos.
Valeu a pena. Somos muitos, diferentes e iguais,
criativos, perseverantes.Parabéns a todos nós
psicodramatistas." (Cida Davoli)
@ "Realmente foi um congresso inesquecível.
Eu sinto que nós crescemos como um grupo e
que, finalmente, podemos fazer trocas saudáveis,
onde as diferenças são respeitadas e até servem
como estímulo para a curiosidade e para o novo.
Eu também quero parabenizar a Comissão
Organizadora, Eveline e equipe e a Diretoria da
FEBRAP, na pessoa da Marlene.
Também quero agradecer a todos os colegas e
dizer que me orgulho de estar entre vocês."
(Rosa Cukier)
@ "Estou em estado de graça: que Congresso!
Quanto clima fraterno e compartilhamento verdadeiros. Quantos encontros e reencontros.
Quanta história reencontrada e reafirmada. O
quanto foi importante a presença e a participação
dos iniciadores, tão atuais e criativos, quanto os
de hoje, também tão criativos e encantadores,
com a seriedade nos seus trabalhos. Que sentimento prazeroso de estarmos todos irmanados !
FEBRAP, Marlene, Eveline e suas equipes e a todos que trabalharam para que este Congresso se
tranformasse em uma realidade de altíssimo nível, tanto científico como sócio-cultural. Meu
muitíssimo obrigada."
(Yvette Datner)
@ "Que belo Congresso Brasileiro de Psicodrama nós tivemos! A Comissão Organizadora e
a Diretoria da FEBRAP estão de parabéns!" (Silvia Petrilli)
@ "Saí muito grata desse Congresso e penso
mesmo que os organizadores estão de parabéns.
Essa energia positiva que circulou durante todo
o Congresso deve também 'abençoar' o II Congresso Ibero-Americano que 'promete' ..." (Terezinha Tomé Baptista)
Índice
O Congresso e o Planeta Terra
Encontros, desencontros, diversidade, unidade, beleza, alegria, harmonia; esse era, finalmente, o clima do nosso Congresso; Atualizando a Cena do nosso Movimento Psicodramático "FEBRAP"
A presença das regionais Centro-Oeste; Norte-Nordeste; Sul;
Sudeste e regional São Paulo, unindo-se à presença de países latino-amencanos: Argentina, Bolivia, Colombia, Chile, Equador,
Guiana, Venezuela, México, Paraguai, Peru, Suriname e Uruguai. Era uma representatividade do nosso planeta Terra querendo resgatar sorillos e matar saudades.
A comissão organizadora, presente, silenciosa, sempre pronta
a solucionar situações imprevistas, deve estar neste momento vivendo a satisfação do dever cumprido e a alegria com os resultados alcançados. Parabéns, certamente o clima de harmonia e
compreensão esteve presente nas relações da Comissão e dessa
com a Diretoria da FEBRAP garantindo o clima festivo, fraterno
e harmonioso que marca esse Congresso e atualiza a cena do
Movimento Psicodrarnático. Estou pontuando isto com muita alegria, sendo ex-conselheira da FEBRAP.
Outro ponto que marcou para mim, ao observar o Movimento
Psicodramático, foi o da "Consciência Planetária" presente na
reverência aos mestres, pioneiros da nossa rede internacional de
psicodramatista.
Como persigo as questões: "Como o ser humano aprende?
Como enfrentamos os desafios na aquisição do conhecimento?
Percebi que o pensamento científico está, cada vez mais, olhando :
com bons olhos o pensamento poético; ou que a inteligência intelectual está
dando espaço para a
inteligência emocional se expressar.
Nesse casamento,
nessa possibilidade de ora sermos
cientistas, ora poetas, a visão holística surge favorecendo-nos estar
com Moreno, abrindo
uma porta para o "sabor" ou o "saber".
Vi nesse Congresso cair por
algumas vezes um preconceito que eu percebia existir na nossa "
rede moreniana: "Defina, você é Moreno ou " Hoje percebo
cada vez mais casamentos e nessas uniões uma visão iluminada,
uma visão moreniana.
Obrigada a todos que nos proporcionaram a oportunidade de
atualizar a nossa cena dentro de cada um de nós, mas sobretudo,
atualizou no Movimento Psicodramático e conseqtientemente no
nosso sofrido planeta Terra.
Cely Ribeiro Wagner
Psicopedagoda, psicodramatista, professora, supervisora.
Revolução Creadora - S.P.
Índice
Em Cena pergunta: Este congresso atualizou sua cena ?
"Difícil responder como o llo CBP e o 4° ELAP contribuÍram para a atualização de
minha cena, tantas foram as oportunidades que me proporcionaram.
A presença de nossos "pais psicodramáticos", além de me enternecer, de me fazer
sentir 'pertencente' , fez com que me sentisse uma psicodramatista madura. Pude resgatar minha matriz de identidade profissional sem a admiração infantil, nem a rebeldia
crítica adolescente, mas com o respeito próprio de um adulto que pode inverter papel
com os pais, reconhecendo seus valores e compreendendo suas dificuldades.
Foi muito bom reencontrar amigos de regiões distantes que aprendi a amar e ter a
chance de atualizar a 'vida' e compartilhar experiências ricas e profundas.
A oportunidade de participar de vivências dirigidas por colegas, não só me auxiliaram
na revisão de muitas cenas pessoais, quanto me atualizaram no meu papel de diretor,
sempre em desenvolvimento.
Tive a felicidade, ainda, de ter verdadeiros 'Encontros' com colegas, com quem
tenho convivido há anos, mas nunca havia realmente me aproximado.
E, finalmente, foi muito, mas muito gratificante mesmo, estar com colegas que eu
muito prezo e valorizo e que entregaram-se tão abertamente à minha direção.
Meu muito obrigada a todos, por tudo o que pude viver. Sinto saudades."
(Rosa Lidia Pacheco F. Pontes -Psicóloga e Psicodramatista)
"Sem dúvida alguma que sim. Considerei muito feliz a escolha do tema' Atualizando
a Cena', no momento em que estamos nos preparando para a virada do século. Penso
ser de extrema importância para nós, psicodramatistas brasileiro, revermos nossa forma
de trabalho. Precisamos estar preparados para, frente a frente com o Homem no 3°
milênio, desenvolvermos novas técnicas, aperfeiçoarmos as existentes, transformarmos
as conhecidas e aprendidas ao longo de nossas vidas. Tomando como base a visão
moreniana de Homem, os conceitos de espontaneidade e criatividade, ou seja, o Homem
é um ser em relação, espontâneo e criativo, torna-se imprescindível, na minha visão, que
nós, psicoterapeutas, estejamos sempre abertos para atualizarmos nossas cenas profissionais e pessoais, para continuarmos a estar na relação com este Homem.
Quando vivi, durante cinco dias, um Encontro com colegas antigos e colegas novos,
em clima de harmonia, respeito e solidariedade, tenho plena certeza de que não só atualizei minha cena profissional, como a pessoal."
(Nice Brandão -Psicóloga e
Psicodramatista)
"Sim, atualizou e mais que atualizou, afirmou de modo diferente, práticas e percepções existentes no meu trajeto como integrante do Movimento Psicodramático."
(Paulo
Amado - Psiquiatra e Psicodramatista)
Índice
O psicodrama na Educação Empresarial: criando a alma da corporação
No cotidiano das empresas, muito
se fala de mudança. O problema
parece ser sair da palavra e passar à ação, pois nunca se treinou tanto,
quanto hoje. E, no entanto, a realidade se distancia cada vez mais do ideal, da utopia de uma sociedade mais humana e digna. O treinamento virou a panacéia e pajelança da tribo: do alpinismo às táticas de guerrilhas, o homem, como ser
inacabado, se acabou... Como mudar essas circunstâncias? Ora, sabemos que
a organização só muda quando mudam
os homens... mas: quem será que muda
o homem? Sobreviverá o humano à imposição da organização ?
Essa mudança é um processo qualitativo, não quantitativo.
A vida humana é
feita de cotidiano, não apenas de grandes,
acontecimentos ou de grandes durações.
Quanto mais navegamos na direção do
futuro, mais nos encontramos com a difícil, árdua tarefa de modificar a nós mesmos, nossos velhos hábitos, padrões e modelos de pensamento. A criatividade e a
espontaneidade para mudar, aceitando a
nós mesmos e aos outros, na sua/nossa
singularidade, para construir algo novo,
juntos, necessitam de uma utopia, de um
lugar possível, mesmo que distante; concreto, ainda que projetado no futuro. E a
humanidade cada vez mais se "com-forma" aos modelos de competição e de
guerra pela sobrevivência. Haverá
chances de sobreviver sem o humano?
Moreno achava que não. Não havia
possibilidade para o homem senão criar,
da própria conserva que o criou, o conhecimento para ir adiante e não se deixar abater pela máquina e pela tecnologia, essa mesma, que nos moldou à sua
própria imagem sem nenhum protesto de
nossa parte. Para ele, essa era a Revolução Criadora. Só na ação, através da
catarse, a reestruturação de processos
mentais que mapeiam as relações
interpessoais, se toma possível.
É preciso, sobretudo, reintegrar o ser
humano, não adaptando-o ao sistema,
mas adaptando o sistema a ele. Não a
um só homem ou a qualquer homem, mas à humanidade como o seu coletivo, que é
onde, afinal, se encontra todo o saber. É
necessário favorecer a compreensão
sistêmica, de que estamos todos compreendidos em um só todo, onde a qualidade
das relações é que faz (muita) diferença. Pensar sistemicamente é perceber
em tudo o jogo de equih'brio que é a própria tensão da vida.
Na sociedade do conhecimento, o trabalho é a contrapartida de nossa consciência
em relação ao nosso papel no mundo. Estaríamos aqui para destruí-lo ou para viabilizar o desenvolvimento de todas as espécies vivas numa cadeia de, evolução/transformação ? A história do homem é urna seqtiência
de mudanças ! O desenvolvimento da biologia e da medicina proporcionou uma nova relação do homem com seu próprio corpo,
que é a conserva das conservas. Fatos
como a reprodução humana, a doença e a
morte, antes irreversíveis, também deixaram
de ser certezas.
As próteses cognitivas materializadas
em computadores e softwares modificam também a nossa capacidade intelectual e as formas do laço social. O trabalho se desmaterializou e, com ele, também a empresa. O tempo se desintegrou.
Passado e futuro se uniram num só presente do presente.
A conquista espacial também modifica a nossa relação com o espaço e nos
traz a possibilidade de colonizarmos outros mundos e de nos comunicarmos com
outros planetas. Voltamos a ser nômades, só que de um nomadismo imóvel. É
o mundo que passa diante de nossos
olhos, numa tela de computador.
Como nosso ancestral de Neandertal,
necessitamos de uma nova linguagem que
garanta a nossa sobrevivência. Essa nova
linguagem é urna rede de solidariedade. Se
não nos decidinnos a nos levantar e criá-la,
se não nos lançarmos no desafio de tecer
juntos um projeto político, social e cultural,
é possível que não haja mais organizações
a gerir num futuro muito próximo, nem, muito menos, pessoas a educar.
A sociatria de Moreno destaca o muito que aprendemos através do diálogo e
da discussão. Para que o conhecimento
seja intemalizado numa comunidade empresarial e se materialize em excelência
dos serviços é preciso que se explicitem
os saberes, que se combinem os aprendizados e que se socializem as descobertas.
Não sobreviveremos ao individualismo
mecanicista que endeusou a razão instrumental e aboliu a emoção dos processos
dentro da empresa. Nenhum empreendimento sobreviverá ao treinamento de habilidades. Por isso, a palavra é educação.
Agora, quando se pensa em educação, se pensa em uma educação para
quem e com que fms. A realidade é cada
vez mais caleidoscópica. O consumo
pelo consumo e o mito do desenvolvimento excluíram de nossas vidas não só
a reflexão sobre a miséria humana, mas
excluíram também a diversidade e a crítica. Talvez esteja na hora de refletirmos
e nos demorarmos mais no questionamento dos valores e na elaboração de
uma utopia que permita educar homens e mulheres para o social e o social para
conter o verdadeiro Homem.
Corina Castro e Silva
Psicodramatista (SOMOPSI) e consultora
Índice
Dissemos sim definitivo num e-mail de setembro de 1998. Ele do México e eu do Brasil
"CASAMENTO PELA INTERNET"
"PROCURO, PSICODRAMATISTA, CONSULTOR DE EMPRESAS, PARA FINS DE
'CASAMENTO' IBERO-AMERICANO... "
Sou, EU.. (responde um e-mail Ibero-
americano )
E, agora... ?
Mergulhei, de cabeça, no meu computador,
conectei a Internet, antes mesmo de escrever a minha mensagem contendo os meus desejos
psicodramáticos.
Pois é, né ! ! Novas relações são novas relações, mesmo que inter-profissionais e mesmo contando com o clima de bom humor e alegria deste
congresso...
Sem eu conhecer o outro, que é só um nome
por enquanto, e este outro nunca ter me visto, ou
até mesmo nem ouvido falar que eu existo na face
da terra, sem saber, ao certo, se a escolha iria funcionar, dá um frio na barriga e branco na cabeça! !
O que dizer? O que apresentar de mim e do meu trabalho? O que devo saber do outro, para
que eu escolha também? Como expressar, por escrito, o meu entusiasmo pelo que acredito, crio,
realizo e faço na vida ?
Respirei fundo... um café e... enviei uma espécie de biografia assinalando as minhas crenças e
princípios, minha experiência em Psicodrarna, formação e a razão da minha proposta.
(Solilóquio) "Será que os nossos Santos vão bater?"...
CORAGEM! Cliquei no "ENVIAR" e lá fui eu,
via Internet, encontrar o meu, quem sabe, parceiro
de Unidade-Funcional, do Ibero-americano.
Imediatamente, uma resposta super simpática,
afetuosa, cheia de perguntas e curiosidades que foram logo respondidas com outras questões do meu interesse.
Assim, foram vários e-mails, faxes e inclusive
telefonemas que foram, a cada um, confirmando
que o encaminhamento e a sugestão da Comissão
Científica estava dando certo. Não é que a coisa
funciona mesmo ?
Dissemos o sim definitivo num e-mail de setembro de 1998. Ele do México e eu do Brasil.
Convidamos todos para compartilhar conosco !
O que ganhamos com este casamento ?
Além de gerar a nossa participação no Ibero-Americano, enquanto Unidade Funcional Casada,
também intensificou urna troca imensa de questões
sobre: fundamentos filosóficos do Psicodrama, Ética nas Empresas, como fazemos propostas nas
empresas, como nos valemos da metodologia
psicodramática, qual nossa postura diante de determinados fenômenos tais como conflitos, poder,
discriminação, perseguição, amor, como encaminhamos o projeto dramático, etc.
Nosso trabalho está "prontito". Nossa inscrição
está feita. Viagens planejadas
Yvette Datner
Psicodramatista, Consultora de Emrpesas e
Ombudsman do II Congresso Ibero-Americano de Psicodrama
Índice

Escritos Psicodramáticos
Durante o 11º CBP e a 4º ELAP foi entregue o 1º Prêmio FEBRAP de Escritos Psicodrmáticos. Os vencedores foram:
1º Lugar: Noemi Bernardete Silva Lima, psicóloga e psicodramatista (IPPGC);
2º Lugar: Marly Unello Rosinha, bióloga e mestre em Ciências da Educação (ABPS);
3º Lugar: Ailton José Scavassa, médico-psicoterapeuta e psicodramatista (IPPGM).
A seguir, o Em Cena apresenta uma sinopse do Escrito que ficou em primeiro lugar, quem tiver interesse, a Revista Brasileira de Psicodrma publicou estes escritos na íntegra.
Parabéns a todos o autores.
O psicodrama como instrumento didático na universidade
A busca incansável por novos meios de ensinar
leva, muitas vezes, o profissional docente por
caminhos diferentes daqueles imaginados por ele
no decorrer de sua formação. Criar é preciso, mesmo porque, sem renovação não é possível crescer.
É triste observar as repetições sem fim a que se
submete o professor simplesmente por falta de informações sobre as possibildades de trabalho dentro da sala de aula.
Partindo daí, toma-se necessária uma sénã alteração no papel do professor. Devemos passar de
meros transmissores dos saberes existentes, para
mediadores entre o que o aluno sabe e o passo a
mais que lhe é apresentado. A construção não será
portanto obra nossa e sim da relação aluno-objeto
do conhecimento.
A pesquisa foi realizada no âmbito da universidade particular, universo de trabalho e ação desta
autora. Os sujeitos foram recrutados de cursos nos
quais o pesquisador atua e cujo perfil
profissiográfico lhe diz respeito. A equipe de professores das instituições envolvidas tem formação
profissional semelhante, inclusive no que concerne
aos psicodramatistas.
A aplicação dos instrumentos foi feita em dia de
aula normal, para todos os alunos presentes, 377 para
cada tipo de questionário. Foram denominadas salas
controles (SC) aquelas nas quais as disciplinas Fisiológicas foram trabalhadas através da didática tradicional
(aulas expositivas ) e salas experimentais (SE), onde os
professores usaram as técnicas drnmática.lsso porque
a hipótese orientadora do trabalho é de que o
Psicodrama pode representar, na prática docente, um
agente didático facilitador do processo de aprendizagem na universidade, seIVindo melhor às aplicações das
idéias desenvolvimentistas que a didática tradicional representada pela aula expositiva. Todos os resultados
apontaram para o Psicodrama como fator detenninante
na melhoria da qualidade do aprendizado.
O docente que aplica o Psicodrama deve ter também uma visão psicodrarnática do mundo que o cerca. Não se faz Psicodrama só por uma hora ou duas;
Psicodrama se vive. Assim, a relação professor-aluno precisa ser vivida também de uma forma horizontal, abandonando-se a hierarquia e o pseudo-respeito
que a acompanha. o professor e os alunos são companheiros na constl1lção do conhecimento que se faz
no "momento" fecundo que o Psicodrama oferece.
Rever-se como pessoa e profissional é necessário
para que se redimensione o papel de professor que
só norteia e não impõe o saber.
Desta maneira, utilizamos as técnicas
psicodramáticas nos vários cursos em que ministramos aulas de Fisiologia Humana com ótimos resultados e, ao contrário do que se pensa, percebe-
mos que os adultos adaptam-se com rapidez ao
Psicodrama. O prazer de estar próximo dos alunos
é grande e, no final dos trabalhos, fica a dúvida:
quem ensinou a quem?
Marly Unello Rosinha
Índice
A experiencia Psicodramática de Freud
Na epígrafe do trabalho transcrevi uma fala de
Paulo Freire que é bastante significativa para
mim: "Criar o que não existe ainda deve ser a pretensão de todo o sujeito que está vivo". "Fez-se a
descrição de um relato de caso de Sigmund Freud,
que se acopla àquilo que Jacob Levy Moreno denominou Psicodrama. Algumas reflexões
desencadeadas pelo conteúdo do texto são levantadas e consideradas do ponto de vista
psicodramático e psicanalítico".
Como vocês podem perceber, quando me propus
a escrever sobre este caso de Freud, para consumo
de psicodramatistas, não conseguia, num primeiro
momento, atinar como fazer a revelação do inusitado (Freud e seu Psicodrama) sem perder o enfoque
histórico compatível com o desenvolvimento posterior da obra moreniana. Mas, lentamente, delineou-se
que eu deveria entender por que uma vertente
psicodramática não foi seguida por Freud a
posteriori, ou por outros de seus pares e discípulos,
o que redundou na composição final do meu escrito.
O texto freudiano, objeto da apreciação, foi publicado em 1917, porém el.e havia atendido esta
paciente em 1907. Como Moreno relata na sua autobiografia ter dito a Freud que ele não via as pessoas no seu ambiente natural, também tive que considerar esta injunção porque, no caso em apreço,
Freud estava na casa da paciente.
Uma coisa que não comentei no trabalho e que
me fez pensar é se poderia este caso ter tido alguma influência na determinação de Melanie Klein
em ampliar o cenário e utilizar a técnica do brinquedo com crianças. Por outro lado, comentei bastante sobre o por quê, para a grande maioria dos
psicanalistas, ficou impossibilitado o uso de expedientes úteis tal qual a dramatização no trabalho deles. Conclui ter sido o "superego técnico psicanalítico", elaborado por Freud com finalidade de disciplinar a mente do analista no setting, que impossibilitou uma expansão técnica. Esta conclusão estribei-me em Sérvulo Augusto Figueira, PhD, psicanalista formando no Middle Group de Londres, do
qual fui aluno, aberto às necessárias atualizações para seu campo. Tanto que ele declara utilizar
dramatizações e vê a atuação como uma forma de comunicação muito útil.
Num movimento consentâneo a de outros colegas, tenho detectado uma crescente aproximação
nos campos psicanálise- Psicodrama. No trabalho
fiz a transcrição de vários psicanalistas e
psicodramatistas demonstrando isto. Aqui vou fazer a de John Klauber, ex-presidente da Sociedade
Psicanalítica Britânica: "A psicanálise (ao que me
parece) é uma maneira de compreender as pessoas, e se o paciente senta, ou deita, ou dá uma volta
pecla cidade, [...] é, de certa forma, periférico".
A propósito, vocês têm acompanhado os escritos do Fonseca e seu modo de trabalhar com o paciente? Penso que estamos sendo privilegiados ao
podermos ver o que e como ele consegue suas
construções/inovações. Também falo dele neste
trabalho, onde faço menção a 26 autores.
Para concluir, penso que o Movimento
Psicodramático braisleiro está muito criativo. Espero ter despecrtado alguma curiosodade sobre o meu
escrito.
Ailton José Scavassa
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O processo de cura no psicodrama bipessoal
Apartir de sua prática como psicoterapeuta, a
autora focaliza o Psicodrama Bipessoal
como objeto de estudo mais pormenorizado, confrontando aspectos dessa modalidade
psicoterápica com o atendimento grupal, uma vez
que entende que a idéia vigente na comunidade
psicodramática como um todo é que o cliente primeiro do Psicodrama de Moreno é o grupo. Parte
dessa confrontação para levantar a hipótese que
a relação terapêutica é um dos principais instrumentos de trabalho no Psicodrama Bipessoal e
busca embasamento teórico para esta concepção na discussão dos conceitos tele, não-tele, transferência, papel e projeto dramático para concluir, faz um breve relato de um
caso clínico, estabelecendo uma integração entre sua hipótese de estudo, os conceitos discutidos e sua prática em Psicoterapia Psicodramática Individual.
Noemi Bernadete Silva Lima
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Uma verdade psicodramática e poética sobre o Natal
Cada dia eu me convenço mais de que ser
psicodramatista é um corajoso ato de fé.
"Fé na vida, fé no homem, fé no que virá".
O próprio Moreno fala da sua crença na espontaneidade, além de outras, no livro Fundamentos do
Psicodrama.
Um dos atos de coragem de Moreno é a seriedade científica ao falar de Deus, que certamente
sucumbe internamente a todos. Devo assinalar que
este aspecto religioso de Moreno me atrai bastante
e me motivou a escrever sobre o Natal.
Moreno fala do Cristianismo como procedimento terapêutico para a Humanidade, pela universalidade dos seus métodos e pela praticabilidade dos
seus instrumentos.
Então comecemos pelo Natal, fazendo uma leitura da dinâmica quotidiana alterada nos seus vários
aspectos: sócio-relacional, financeiro, profissional,
pessoal, religioso etc~ É uma celebração tão intensa,
a começar do cenário, com muitas luzes, cores, brilhos nos diversos símbolos natalinos (árvores, velas,
sinos, guirlandas, botinhas, bengalas etc.), em especial, o Papai Noel, com quem não dá para inverter os
papéis, restando a nós personificá-lo.
No filme de Walt Disney, Peter Pan, quando o
personagem principal vai ensinar aos demais, João,
Miguel e Wendy, a voar, pede-lhes para pensar em
uma coisa bem linda e a Wendy responde:
"Como o Natal?"
John Lennon e Yoko Ono compuseram a música "Happy X mas" (War is over)" traduzido por
Cláudio Rabello que diz:
"Então é Natal
A festa cristã
Do velho e do novo
Do amor como todo. "
É muito patente, então, a permeabilidade do
Natal nas diversas culturas e seu significado interrelaciona!. O comportamento das pessoas muda,
passamos a relevar ofensas, atritos em nome do
Natal, a palavra confraternização torna-se mais
freqUente nas falas; é como se o Natal fosse uma
"metáfora" para vivenciarmos o desejo de comunhão, a solidariedade, a fraternidade.
No Natal, forma-se um clima protagônico grupal,
que vários duplos acontecem para conseguirmos
expressar emoções, sentimentos; invertemos os papéis e chegarmos a encontros. O contexto social e
"psicodramático" (mais do que nunca realidade e
fantasia estão em harmonia), possui uma liberdade
da tensão insuportável e liberdade para experienciar
e expressar-se como ser-em-relação numa eterna
construção de si mesmo e do outro.
Percebo o Natal como um grande Psicodrama,
no qual o Menino Deus é o emergente grupal (nós
emergimos nele) se desvelando no nascimento, que
aglutina o renascimento (drama privado) de todos, constituindo o drama coletivo grupal.
Neste Psicodrama Mundial, o
grau de compartilhamento é
explicitado, usando a linguagem do
Sérgio Perazzo, tanto no nível coconsciente, com seu conteúdo manifesto, como no nível co-inconsciente, a trama oculta.
O Natal reconecta-nos com o
nascimento, na ótica de Moreno, o
maior ato espontâneo, despertando-nos para a possibilidade do resgate
da nossa espontaneidade criativa.
Mais uma vez, nos aproximamos
do momento da criação, de autoria
da história, do Deus essencialmente
espontâneo, o Deus-Menino. Um
momento de perplexidade ao ver
tanta grandeza e sublimidade em
meio à simplicidade.
Se focarmos a cena original do
nascimento do Menino-Jesus (cada
um de nós tem a nossa intemalizada)
rodeado dos seus egos auxiliares
Maria e José, aquecido pelos animais
e assistido pelos pastores e reis magos, veremos que o ato criador é
substancialmente um ato de amor. A
criação pressupõe o compartilhar, sintonizando o próprio ser com o sentido da existência.
O Psicodrama é o movimento da própria vida.
Como diz Sérgio Perazzo no texto Compaixão e
compartilhar:
"O Psicodrama, pois, supõe compartilhar.
Compartilhar supõe um movimento
interpenetrante entre seres humanos que se configura como o fluir possível, em cada momento, de
um conjunto de sensações, emoções e sentimentos,
nomeados ou não, gravados de alguma forma corporalmente, claramente visíveis ou não, simbolizados pela palavra ou pela expressão gestual ou não,
decodificados pela percepção distorcida ou não
pela transferência, resultado de uma simultaneidade de construção co-criativa, co-consciência e coinconsciente."
Todo o festejo natalino é Psicodramaticamente
muito expressivo. 0 advento, tempo de preparação
para o Natal, é o aquecimento preparatório para o
ato de nascer, onde os fatores e estão operando.
Podemos usar iniciadores físicos, intelectivos, sócio-relacionais, fisiológicos e mentais, para melhorar o grau de aquecimento, mantendo a espontaneidade em operação.
A comemoração natalina em si é a dramatização, com cenário bem montado, às vezes uma
ceia ou uma árvore de Natal. Mas se vai chegar à
cena de libertação, eu penso, que vai depender se o
protagonista (que pode ser cada um de nós) está
aquecido e disponível para o encontro, se tem um
bom ego auxiliar, capaz de incorporar as pistas essenciais e se vai para a cena certa.
Aquela que vai
reconectá-lo com sua identidade, resgatar a sua
espontaneidade, devolver-lhe a criança dele, buscar um status nascendi novo.
É preciso que acena vivida seja um
renascimento, uma segunda vez verdadeira para
ser libertadora; onde caiba o momento moreniano
essencialmente do encontro e da criação, permitindo o destaque de um instante que transforma as
pessoas envolvidas; e que possa continuar na vida
um processo de catarse de integração.
O compartilhamento é permanente, já vinha se
processando e sempre o virá, na medida em que o
drama antes de ser individual é coletivo.
Desejo a todos nós que o Natal seja um momento
iluminado para aclarar o nosso cotidiano num movimento de encontro consigo mesmo e com o outro.
Ana Cristina Benevides Pinto
Psicóloga e psicodramatista.
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