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Jornal Informativo da FEBRAP - Federação Brasileira de Psicodrama
Ano 14 - nº3 - Julho/Agosto/Setembro - 1997
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Outras Edições
Editorial
Nossa caminhada continua.Neste percuso temos nos orientado pelo feed
back que vocês, psicodramatista vão nos dando a cada cumprida.
No último trimestre percebemos que nossos canais de comunicação vêm
se tornando um ponto importante para a interação,tão necessaria ao
alinhamento de nossas ações com os interesses dos psicodramatitas.
Nosso site na internet,lançado em julho passado,tem sido visitado
por brasileiros e estrangeiros e temos inumeras mensagens com sugestões
participações e elogios. Só temos que agradecer a todas as colaborações
e esperar que elas cresçam constantimente,intensificando o nosso proceso
de comunicação.
Gostaria de acrescentar a fundalmental importância de se dar atenção á
divulgação dos "Boletins",outra via de comunicação que temos incrementando para tornar ágil e rápida a comunicação da diretoria executiva
da FEBRAP com seus associados. Cabendo á diretoria de cada federada a
propagação das informações veiculadas pelo"Boletim", aos seus associados
e estudantes. Além disso,cabe ressaltar a preocupação da diretoria da
FEBRAP em estar presente nos encontros regionais,como ocorreu no
III Encontro da Regional Sudeste.
Acreditamos que por meio de uma boa comunicação podermos garantir a
obtenção de um crescimento maduro de nossa Federação.
Estamos tentando aperfeiçoar nossos meios de comunicação e precissamos
que vocês participem ativamente neste processo.
O jornal em cena gostaria de cumprimentar a todos os psicólogos psicodramatista, que são em grande número em nosso movimento, pelos 35 anos
da regulamentação da profição, comemorados em 27 de agosto, dia do psicólogo.
Nesta edição, apesentamos uma entrevista exclusiva de Marta Karp ao Em Cena.
Na entrevista, realizada na última vinda de Marcia ao Brasil, em maio
deste ano,ela fala sobre o humor no psicodrama e nos revela a sua forma
de trabalhar.
Na página cinco,você poderá ler o artigo"O psicodrama na Educação", de
Magda Regina Rosa e na página sete,Paulo Zampieri aborda o grave problema
da dependência química. Além dos artigos e seções que sempre trazem aspectos
para reflexão,estamos apresentando nesta edição uma novidade:o "Indicador
Profissional". Trata-se de um encarte,para ser arquivado, que será publicado
a cada edição do Em Cena.Com isso,pretendemos ampliar nossa rede de
contatos e indicações nas mais diversas áreas de serviços: educação, social, organização, saúde, clínica, etc. Cabe a todos nós aumentarmos a
abrangência desta rede, divulgando o nosso trabalho e de outros profissionais.
Maria Cecília Veluk dias Baptista
Diretora de Divulgação e Comunicação
Índice
A IAGP e Moreno
Dirijo-me novamente aos psicoterapeutas de grupo e psicodramatistas
brasileiros para divulgar alguns
aspectos históricos sobre a IAGP -Associação Internacional de Psicoterapia de
Grupo. Ao fazê-lo, estou, também, revelando o esforço de Moreno para a criação dessa entidade.
Moreno percebeu, na fase final de sua
vida, que mais importante que as polêmicas
com a psicanálise, ou com Slavson em torno
do pioneirismo da psicoterapia de grupo, era
fundar uma associação internacional que
reunisse todas as correntes da psicoterapia de
grupo. Ele lutou por isso desde os anos 50.
Com efeito, ele iniciou essa busca em Paris, em 1951, fim dando o "Comitê Internacional de Psicoterapia de Grupo". Os objetivos eram simples e diretos: 1) definir padrões no sentido de um consenso de tennos e
operações; 2) realização de congressos internacionais; 3) patrocínio de uma publicação
intemacional. Três anos depois um dos itens
já tinha sido cumprido, a realização do I
Congresso Intemacional de Psicoterapia de
Grupo, em Toronto, Canadá. Coincidentemente, na mesma cidade onde Moreno, em
1931, conseguiu o primeiro reconhecimento
oficial da psicoterapia de grupo, junto à Associação Americana de Psiquiatria.
Em 1963, foi criado o "Conselho Internacional de Psicoterapia de Grupo" e Moreno foi eleito presidente.
Finalmente, em agosto de 1973, durante
a realização do V Congresso Internacional
de Psicoterapia de Grupo, em ZUrich, Moreno, com 84 anos, presidiu a incorporação
internacional de sua tão batalhada instituição.
A ida de Moreno para ZUrich constituiu-se em sua última viagem internacional. Retornando a Beacon escreveu um pequeno texto
que acabou sendo, também, sua última
publicação - morreu poucos meses depois,
em maio de 1974. Ele estava passando o
bastão, consciente da missão cumprida. Podemos considerar esta "carta aberta" como um
adeus e um convite para a continuidade de seu
trabalho junto à comunidade internacional de
psicoterapeutas de grupo. Pela sua contemporaneidade transcrevo-a:
"Caro amigo,
A Associação Internacional de Psicoterapia de Qropo {IAGP}foi um dosprincipais objetivos pelo qual batalhei desde
1951. Agora que se tornou realidade,
espero que você lhe dê todo o apoio.
Necessitamos de apoio moral e financeiro,
pois desejamos manter um alto nível
acadêmico e um contacto contínuo entre os
colegas de todas as partes do mundo, em
nossos congressos internacionais.
Sua afiliação é a forma de demonstrar
interesse por esta causa.
Esta realização foi o coroamento de
minha vida profissional.
Atenciosamente,
.I L. Moreno, M. D.
Presidente Honorário "
Dr. José de Souza Fonseca Filho
(Membro do Conselho-Diretor da IAGP)
Índice
Quem somos
Na época da sua estruturação, a FEBRAP tinha como proposta agrupar
as pessoas envolvidas com o psicodrama. Estas diferentes pessoas
que. atualmente costituem grupos e instituições com ideologias, interesses científicos e políticos diversos, constroem o comentado Movimento
Psicodramático Brasileiro.
Podemos retomar a nossa história e destacar momentos cruciais, que contribuíram para desenhar o momento atual. Por exemplo, o I Seminário da
FEBRAP, em Florianópolis, e a pesquisa lançada na gestão de Geraldo Massaro: "A FEBRAP que nós queremos". O projeto visava entender, também,
como as decisões internas às federadas ou à Diretoria Executiva, aparentemente de caráter técnico administrativo, relacionavam-se com os processos político e econômico, que interferem diretamente na atuação do movimen
to. Todas as instituições eram sem fins lucrativos e se organizavam, necessariamente, em torno do Curso de Formação, o que lhes dava pouco acesso a
uma visão de processo organizativo.
Outro aspecto importante na co-construção desta história são os sujeitos
que formam os mais distintos grupos de interesses: na Diretoria da entidade, nas representações regionais, na Câmara de Ensino e Ética, nas assembléias e na Diretoria Executiva. Outras implicações surgem das rupturas
nos modos de pensar vigentes, das emergências de novas idéias ou do estabelecimento de valores conquistados e necessários no atual momento.
Nesta movimentação de forças e neste movimento dialético, marcado
pelo intercâmbio entre os sujeitos, os grupos de interesses, as estruturas
fisicas e as instâncias políticas, são articulados critérios e posições para a
formação de uma síntese. Critérios que interferem no estabelecimento de
ideologias, referendando ou negando certas idéias, difundindo noções e conceitos e recobrindo de legitimidade científica determinadas formulações. As
verdades são, portanto, relativas e podem ser discutidas e superadas por
novas descobertas.
A FEBRAP que queremos é a que está presente em nossas ações, quando
participamos coletiva e dialeticamente do Movimento Psicodramático Brasileiro. Se a identidade é uma construção, é importante que respondamos como
pretendemos colaborar para a construção da identidade da nossa FEBRAP.
Participar na construção de um processo é integrá-Io em nossa experiência profissional, é uma vivência que pode ser reconhecida como o que Moreno conceituou ser a Pedagogia do Ato Criador.
O movimento vai se constituindo e há sempre uma necessidade premente de reflexão crítica sobre o acúmulo de conhecimentos e experiências que
significa todo este processo organizativo.
O papel da Diretoria atualmente, com as últimas assembléias, é de
possibilitar a consolidação de posições e compromissos reais, que se referem ao ensino, à estrutura, à administração e à política. Visamos possibilitar aos psicodramatistas, com a função de representantes, a incorporação da responsabilidade para a construção de um projeto nacional. Nossa
concepção admite a probabilidade de acontecimentos imprevisíveis, sabemos que teremos outonos e invernos e permitiremos espaços para a criação e o inédito.
Estamos trabalhando com duas rhetas. A primeira, no sentido de arrumar, atualizar e modernizar nossa casa, para receber as vertiginosas mudanças propostas para as instituições do futuro. Estamos aperfeiçoando
nossas estratégias, buscando o profissionalismo de nossa atuação e patrocínios que garantam novos e arrojados projetos. Queremos ainda garantir
que todos os psjcodramatistas atuantes em suas regiões possam ter seus
registros na FEBRAP, uma vez que solicitem e tenham a documentação
necessária.
Nossa segunda meta é deflagrar novos projetos que contribuirão para o
crescimento e a confirmação da FEBRAP no cenário mundial.
Contamos com sua participação e colaboração. Escrevam nos falando o
que pensam e querem da nossa FEBRAP.
Marlene Magnabosco Mara
Presidente da FEBRAP
Índice
Os Bastidores do Congresso
Estamos nos preparando para o 11ºCongresso Brasileiro de psicodrama.
Toda a comissão organizadora vem se empenhando para oferecer aos psicodramatistas
brasileiros uma boa recepção,atividades científicas à altura de nossas
necessidades e,principalmente,um clima que favoreça o encontro.
Não foi fácil escolher um lugar que pudesse acolher nossas idéias caracteristicas e correspondesse aos anseio de todos.Campos do Jordão nos pareceu o lugar ideal pelo clima,situação geográfica que possibilitará um maior número de participantes,alémda beleza do lugar que,com certeza, alegrará os olhos todos.
A comissão Científica tem trabalho com,afinco para oferecer variedade
e qualidade de atividades.Esta tarefa é,neste momento,ainda de maior
responsabilidade,uma vez que sediaremos concomitantemente o 4º Encontro
Latino-Americano de Psicodrama.Lá estarão representates do movimento
psicodramáticos de toda a América-Latina.
Teremos ainda,desta vez,um pré-congresso,que contará com um workshop
dirigido por Zerka Moreno que já está confirmado e contratado. Este se
realizará no dia 04 e terá a duração de 6 horas.
Sendo o objetivo do Congresso propocionar o encontro e a troca de informações,um espaço para que diversas aplicações do psicodrama e seus manejos sejam intercambiados,o aprimoramento técnico e mais ainda a divulgação do psicodrama praticado no Brasil,a Cominção Científica já tem
elaborado um conjunto de atividades,umas novas,como os curtas em debates,e outras já tradicionais,como os Escritos Psicodramaticos. Os trabalhos práticos e teóricos deverão versar sobre o tema do congresso que
é: Atualizando a Cena.
Dando continuidade a idéia surgida no Congresso passado,estamos lançando o 1º Prêmio FEBRAP de melhor Escritos Psicodramaticos,com o objetivo
de estimular a produção científica. Em breve estaremos divulgando o regulamento do concurso.
As demais Comissões(Logísta,Sócio-cultural,Divulgação e até a Tesouraria)
estão igualmente empenhadas em propocionar um Congresso que compense.
Inclusive foi feita uma visita á cidade,no dia 23 de agosto, para se
ter uma dimensão mais realista da situação.
Estamos apenas no começo,aguarde novas informações.
Manoel Dias Reis
Presidente do 11º Congresso Brasileiro de Psicodrama
Índice
Fique por dentro do encontro de professores
A diretora de Ensino e Ciência
da FEBRAP, Ana Maria
Fonseca Zampieri, conta um
pouco mais sobre o V Encontro de
Professores-Supervisores e o IV Encontro de Coordenadores de Ensino,
que serão realizados de 20 a 22 de
novembro deste ano. O evento, que
promete ser um sucesso, depende de
você. Participe. Aproveite esta oportunidade.
"Caros colegas professores, supervisores e coordenadores de ensino.
Temos encontro marcado para novembro próximo, ocasião em que poderemos fazer trocas, reciclar e discutir nossas semelhanças e diferenças
no cenário de aprendizagem do psicodrama da nossa FEBRAP. Queremos amplificar e legitimar
as vozes e as necessidades contextualizadas na FEBRAP em suas várias regiões. Para tanto, temos espaços privilegiados para discutir a Regionalização do Ensino do Psicodrama Brasileiro, atendendo às demandas enviadas pela pesqwsa que
fizemos no início deste ano.. Aguardamos as contribuições de vocês
para suas participações em mesas
redondas, grupos de discussão, supervisÕes, salas de aula e, é claro,
nas atividades de confraternização
que também já estão programadas.
Recebemos muitas colaborações
neste período de definição e montagem da nossa programação. Dados
de realidade também têm sido presentes e, infelizmente, por motivos
diversos, muitos colegas de outros
estados de fora de São Paulo não
poderão comparecer, o que faz com
que tenhamos uma representação
maior de colegas das regiões São
Paulo, Sul e Sudeste, em nossas várias atividades. Todavia, temos colegas de todas as nossas federadas,
que nos deixa confiantes na concretização de nossos desejos de legitimar as diferentes necessidades,
idéias e propostas febrapianas na
multiplicação de psicodramatistas e
na sua reciclagem.
A Comissão Organizadora do V
Encontro Nacional de Professores e
Supervisores e IV Encontro Nacional de Coordenadores de Ensino tem
trabalhado no sentido de favorecer
todas as possibilidades de participação no nível científico e financeiro.
O investimento de R$ 150,00 pode-
rá ser parcelado em três vezes e a
secretaria da FEBRAP tem indicação de hotéis, com bons preços,
próximos do Sedes. Queremos muito recebê-lo para a concretização da "Excelência no Ensino do Psicodrama".
Na última Assembléia Geral Extraordinária, decidimos reconhecer,
com registro na FEBRAP, nossos
Professores Pioneiros, em justo reconhecimento, e tomá-los participantes
destes novos momentos de filiação.
Esperamos contar com os mesmos e
vários deles têm seus nomes confir-
mados no próximo Encontro, conforme poderão obsevar no folder que
deverão estar recebendo em breve.
A secretaria da FEBRAP encontra-se à sua disposição para orientá-lo para viagens aéreas e hospedagem.
Procurem-nos! Há várias opções para
facilitar sua vinda.
Durante o Encontro, será lançado
o próximo número da Revista da
FEBRAP, apresentaremos o trabalho
artístico-musical dos "Meninos do
Morumbi" com quem temos mantido
uma enriquecedora parceria de trabalho, e também terá a estréia de uma
peça teatral inédita de Psicodramatistas, sob direção da colega Camila
Gonçalves.
Além de tudo isto, receberemos
contribuições científicas atualizadas
da eminente professora doutora em
Educação e Psicologia da PUC-SP,
Dr. Rosa Maria Macedo. Haverá um
grupo de músicos psicodramatistas
no coquetel de abertura, e um grupo
de psicodramatistas mestres em dança de salão, sob a direção do colega
Aldo da Silva Jr., no jantar de encerramento.
Temos tido muito prazer em preparar este momento precioso para
recébê-los. Até lá."
Índice
O Psicodrama aplicado á Educação
"Se esta rua fosse minha eu mandava ladrilhar..."
Numa grande roda, mulheres-professoras e
poucos professores, vão cantando como
cantavam na sua inf'ancia, em lugares e
tempos distantes, nos bairros das grandes cidades, nas ruazinhas do interior ou nas proximidades da capital federal.
Emocionam-se e encantam-se ao terminar um
dia de curso ou de trabalho. Compartilham suas
experiências e sentimentos: -Brinquei como não
brincava há anos. - Quando vi, o tempo já tinha
acabado e eu aprendi muitas coisas, porque as
Ivivi e as senti dentro de mim. - Quero mudar o
meu jeito de dar aula.
Este é um dos muitos finais de trabalho psicodramático desenvolvido com professores da rede
pública de ensino. São grupos de. vinte, cinquienta, cem ou mais participantes de cursos ( com
vinte horas-aula aproximadamente) ou de encontros menores ( com quatro horas de duração ).
Os temas são adequados à clientela, no caso,
professores de pré-escola à quarta série do pri-
meiro grau, tais como: O Papel do Professor-Alfabetizador, O Papel do Contador de Histórias,
Brincadeiras e Cantigas de Roda, Avaliação, A
Auto-estima do Aluno Repetente, Adolescência,
Fases de Desenvolvimento da Criança e do Adolescente, A Relação Professor/Aluno, Constru-
tivismo e Alfabetização, O que é Psicodrama? .
No começo de cada encontro, a expectativa
dos participantes é a mesma que a nossa escola
construiu e continua confirmando através dos
tempos. Um fala do seu saber e dos caminhos
trilhados, ou por trilhar, enquanto a platéia ouve
sentada. A maioria procura manter o pensamento
seguro na idéia central mas, quando se percebe,
está divagando por outros rumos...
Os profissionais chegam cansados ou com
pouca vontade de estar presentes, muito sérios,
preocupados com a hora da condução de volta
para outra jornada de trabalho, na escola ou em
casa.
Faço a proposta: será um fazer diferente, com
a participação de todos, com jogos, brincadeiras,
dramatização, um aprendendo com o outro, num
processo de vivência e de troca.
Começamos a andar, os professores falam do
saber sobre o tema proposto. Ao som de músicas
vamos brincando, o campo fica relaxado e pouco
a pouco, todos fazem parte da grande cena e depois das pequenas. São sinalizados a se cuidarem
e a cuidar um do outro.
No corpo, na alma e no coração, vão se concretizando con~eúdos e sentimentos. Só então é
chegada a hora de organizar a teoria
o "como se" possibilitou que as dificuldades
fossem aparecendo, sem apontar para os limites
de cada um. E o que era puro intelecto cristalizado na rigidez corporal, vai se transformando
em emoção e, depois, em palavra. O sentimento
de um é o sentimento do outro. A dor e a alegria
individual são a mesma dor e a mesma alegria
do grupo. Alguns comentam: -Somos crianças
e adolescentes como os nossos alunos.
Junto à teoria, qualquer que seja a proposta,
surge a possibilidade de trocar de papel, com os
alunos ou com os outros colegas professores. A
luz que evidenciava o conteúdo programático é
a mesma que foca também as relações.
Se for apenas um encontro de poucas horas,
fica a mobilização emocional para uma posterior
busca intelectual e, se for em um curso, pouco a
pouco, um jeito mais leve e alegre de dar aulas e
de se relacionar vai sendo incorporado.
E assim, sem grandes estardalhaços, o psicodrama aplicado vai facilitando o nosso trabalho
de tecer a rede da escola pública -e particular.
A nossa alegria e a nossa metodologia vão
entrando nas mais variadas equipes ou diferentes
ofícios: de dar aulas, de coordenar grupos, de
dirigir escolas, de atender no psico-diagnóstico,
de ser professora de meninos e meninas que vivem nas ruas ou são do ensino especial... Enfim,
como num jogo de Lego, vamos fazendo as mais
diferentes combinações de trabalho.
A alegria invade meu coração, quando me
lembro dos trezentos professores de primeira à
quarta série do primeiro grau, em Cuiabá, na
abertura do Encontro das turmas de Aceleração
do Estado de Mato Grosso, de mãos dadas, cantando... "Viver e não ter a vergonha de ser feliz...", ou em Brasília, nos novos assentamentos
ou nas antigas cidades satélites, ou no interior de
Minas, educadores buscando a esperança nos
abraços que ficam na alma, e que irão alimentar
corações de muitos alunos.
Enquanto observo os grupos trabalhando, penso que Moreno daria boas risadas pelo que anda-
mos fazendo com o que ele nos deixou. A cada
possibilidade criada e concretizada, o sonho
moreniano se fortalece em mim e, acredito, em
cada psicodramatÍsta.
Como educadores que somos, precisamos
levar às pessoas, às instituições e, de maneira
especial, às escolas, a alegria e o exercício da
verdade amorosa nas relações.
As crianças e os nossos adolescentes necessitam conviver com uma linguagem dialógica
que não deixe dúvidas na comunicação. E nós
adultos precisamos aprender a ser verdadeiros,
coerentes e mais brincalhões, como as crianças.É preciso manter a crença nas possibilidades
do Encontro e do Amor.
Magda Regina Rosa (CePB)
Índice
Conhecendo Marcia Karp
"Supondo que meu trabalho é peculiar, porque eu adoro rir."
Foi com esta afirmativa bem humorada e também com muita empatia, técnica e ação que Marcia Karp dominou a cena em sua passagem pelo Rio de Janeiro, no primeiro semestre deste ano. Numa promoção conjunta, Delphos Espaço Psico-Social, Núcleo de Psicodrama e SOBRAP, essa renomada psicodramatista inglesa, ex-aluna de Moreno e Zerka, proporcionou a um grupo de 70 profissionais, uma vivência inovadora na forma de aquecer, dramatizar e processar em psicodrama.
Na arte, poucos fariam melhor: Na vida, essa mulher, que já é avó, nos cativou com sua espontaneidade, seu charme e sua alegria de jogar conosoco o seu jogo. Esta entrevista foi realizada minutos antes de sua entrada no palco e contou com a colaboração das colegas Ana Maria Otoni Mesquita e Maria Elizabeth Cascardo.
1 - O que é peculiar ao seu trabalho, comparado ao de Moreno e ao de outros psicodramatistas?
Uma coisa que acontece comigo quando estou dirigindo é que eu me perco no protagonista. Eu sou muito boa na inversão de papéis e também adoro "duplar". Eu "duplo" internamente, muito. Eu me concentro nas habilidades do diretor e como ele as utiliza para ajudar o
protagonista. No meu caso, posso
fazê-lo melhor a partir da internalidade, dos próprios caminhos do
protagonista. Mas, eu suponho que
meu trabalho ~ peculiar tendo em
\ista que eu adoro rir. Moreno declarou em seus escritos que gostaria
de ser lembrado como o psiquiatra
e o homem que trouxe alegria e riso à psiquiatria. Portanto, eu acredito
que o humor é um ótimo barômetro
da saúde. Eu acho que a minha
maior força como diretora, é a minha grande vulnerabilidade. Não estou certa de como eu a conquistei,
mas eu sei que eu uso minha vulnerabilidade para me conectar com
as pessoas.
2 - Essa disponibilidade sempre lhe pareceu natural?
Não. Eu costumava planejar
tudo, fazer todo tipo de execício
para aquecer o grupo. Acho fÍue eu
voltei atrás e agora estou consciente, nos meus treinamentos, que
nós não começamos com a criatividade esperando que isso tome as
pessoas espontâneas. Eu acho que é
justo ao contrário~ O diretor precisa
estar existencialmente presente, espontâneo, aberto, vazio e, daí, as
pessoas escolhem criar alguma coisa juntas.
3 - Sua relação com Moreno foi muito marcaDte na sua formação? Determinou a maneira como você trabalha?
Sim. Ambos, Moreno e Zerka
foram meus professores.
Mentores. Ele estava com seus oitenta anos quando fui ser sua aluna.
Comecei minha formação em 1965,
com 23 anos. Portanto, tive muita
sorte em ser tão jovem e apreender
muito com ele: sua perseverança,
sua energia. Moreno foi a única
pessoa que eu vi tão ofegante de
entusiasmo no palco... Zerka teve
uma grande influência em mim,
principalmente por sua enorme paciência.
4 - Quantos livros você já escreveu?
Eu já escrevi três livros. Um foi
lançado em português, pela editora Ágora, e se chama Psicodrama:
Inspiração e Técnica. O segundo,
Psicodrama desde Moreno: Teoria
e Prática em breve será publicado
em português. O terceiro livro será
lançado em agosto de 1998, por
ocasião do Congresso Internacional
de Psicoterapia de Grupo, em Londres. Nesta ocasião, estaremos realizando atividades pré-congresso e,
por isso, me lembrei de um congresso maravilhoso na Itália, há 10 anos
atrás, do qual Dalmiro Bustos participou. O tema era: Um método,
muitos estilos, e nós tivemos oito
diretores de várias partes do mundo. Pela manhã, cada um dirigia um
grupo e à tarde as pessoas discutiam cada direção. Foi uma semana
fantástica, porque as pessoas foram
capazes de comparar e cadastrar estilos na aplicação de um método.
Para Londres, nós poderíamos conseguir até cinco diretores como
Dalmiro Bustos e Peter Kellerman,
de Israel, entre outros.
5 - Cada diretor de psicodrama tem
um estilo próprio?
Sim. Eu suponho que se perguntannos a um diretor o que é psicodrama, cada um terá uma resposta
diferente. Zerka Moreno, por exemplo, tinha uma irmã que era psicótica e paciente de Moreno. Ela
viu o psicodrama ajudar o paciente
psicótico e ela o percebe como uma
maneira de praticar a vida sem ser
punido por cometer erros. Adan
Blatner estava interessado no psicodrama como uma maneira de ajudar
as pessoas a jogar. Moreno falava
do psicodrama como meio de ensinar espontaneidade. Como nós sabemos, ele o chamava a ciência
para explorar a verdade através do
método dramático.
6 - Você acha que o psicodrama é ciência?
Não. Na mesma medida em que eu não acredito que a psicanálise seja ciência. Eu acho que as hipóteses não eram científicas. Por exemplo, se dissermos que a lua é feita de queijo, pode-se testá-la eventualmente, se formos à lua comprová-la como válida ou não. Se Moreno diz:
o grande recurso do ser humano é a
espontaneidade e a criatividade, não
há maneira científica de testar essa
hipótese. O mesmo acontece com
Freud. Ele dizia: nós temos um instinto de morte, nós temos um ego e
um super-ego. Como vamos testá-las quando elas não são científicas
na sua base? Para mim, tivemos
dois artistas, Moreno e Freud. Freud
fala sobre seus desapontamentos
quando a classe médica adotou suas
idéias e não os artistas. Ele confiava mais nos artistas. Eu acredito que ele e Moreno estão juntos em algum lugar falando sobre os seus desapontamentos e algumas de suas realizações.
7 - Sabemos que você conta uma história muito interessante sobre a
origem da técnica do duplo?
Há uma história fascinante sobre
Moreno e como ele concebeu a técnica do duplo. Isso foi quando ele esteve com Guy de Montpassant, o escritor francês, aparentemente durante
um surto psicótico. Este dizia que
sua psicose começou quando ele viu
um duplo de si mesmo escrevendo
sobre sua mesa. Era uma produção
involuntária de um duplo e Moreno
pensou: como posso ajudar as pessoas a terem controle das suas mentes, fazendo um duplo voluntário de
si mesmas? Ele queria ajudar as pessoas psicóticas a ganharem controle
de suas mentes. Assim, ele produziu
a idéia do duplo, de maneira que elas
pudessem ter o poder de dizer: sim,
isto é o que eu penso, ou, não, isto
não é o que eu penso. A diferença
entre a experiência de Guy de
Montpassant e a técnica do duplo é
ser involuntário e voluntário, respectivamente .
8 - Além de terminar de escrever seu
novo livro, que outros planos você
tem atualmente? Quais as questões
que lhe interessam no momento?
Atualmente, como membro do
conselho da Associação Internacional de Psicoterapia de Grupo, eu
propus a idéia de coordenar um grupo internacional para intervenção
nas crises. Isso quer dizer que, se
temos um problema na Sómália, entre famílias ou grupos de famílias,
se há uma disputa de facções na
Suécia, acredito que precisamos ter
um grupo de especialistas em Psicoterapia de Grupo apolítico, pois
eu acho que não temos a responsabilidade de resolver questões políticas -que pudesse responder ao
anseio da população. Uin grupo que
pudesse ajudar a clarear esta ou
aquela situação. Por exemplo, durante a guerra nas ilhas Malvinas, eu
fui à Argentina, não para resolver,
mas para ajudar as pessoas a enfrentarem as adversidades daquele conflito, tais como as separações, as
perdas possíveis. A idéia seria colocar nossas ferramentas de saúde
mental na promoção da paz mundial, o que de fato foi a meta original de Moreno. Para ele, qualquer
procedimento psicoterapêutico devia almejar a paz mundial.
Uma outra questão que me interessa no momento é desenvolver
uma reflexão sobre as características de um bom diretor, mulher ou
homem, naturalmente. No meu próximo livro há um capítulo no qual eu
discuto esse tema.
Conversando com Zerka Moreno sobre essas características, ela
ponderou que o que considera mais
importante em um diretor é a capacidade dele em conhecer suas próprias limitações. Saber diferenciar
as áreas do eu e do não eu, do que
seja as questões do protagonista e
as suas próprias. O diretor precisa
ter uma distância para poder investigar a situação e apresentar-se
em seu papel sem interromper, sem
obstruir o caminho do protagonista.
O psicodrama cresceu muito no
Brasil e no mundo nos últimos
anos.
9 -
Quais suas impressões sobre o nosso país e sobre o movimento psicodramático atualmente?
Eu amo o Brasil e eu amo estar
aqui. Gosto da espontaneidade das
pessoas, sua música e alma. Isso é
muito importante em psicodrama e
isso faz com que a "dança da vida"
tome-se uma atividade mais criativa.
Entretanto, eu também acredito que
um dado fundamental sobre o gran-
de desenvolvimento do movimento
na América Latina é o fato de ter
sido apresentado por psiquiatras que
treinaram psicólogos, assistentes sociais e acho que isso ajudou esse crescimento rápido. Na Inglaterra, a
psicanálise é muito popular e o movimento se deu de maneira inversa: dos
pára-médicos, para os médicos, tornando, assim, as coisas mais dificeis.
Entretanto, nós já temos sete centros
de treinamento no país, dirigidos por
pessoas treinadas em Wholewell.
Em nosso livro, temos a contribuição
de 12 autores especialistas, treinados
por nós.
O movimento psicodramático
está cada dia maior e melhor no
mundo inteiro. Acredito que estamos indo de volta para o lugar do
"encontro". Um lugar básico onde a
máquina, o fax, o telefone móvel
precisam ser usados a nosso favor.
A máquina não é o encontro. O encontro é o face a face, o olho no
olho e é assim que eu penso que temos que prosseguir.
Índice
Dependência Química e Psicodrama
A dependência química (DQ) de
álcool e drogas traz uma questão fundamental para a sua
abordagem: o paciente e sua família são vítimas e agentes da doença que os atingiu. Assim, estão presos ao fenômeno, subjugados por muita energia de conservação do estado de coisas.
Isto aparece na adaptação crônica
aos sintomas do usuário de álcool e drogas (tentando se proteger da decepção
de se caracterizar como uma pessoa viciada, dependente) e na sua família, nas
tentativas de se proteger das ameaças,
vergonha e culpa que significam ter um
membro do átomo social familiar acometido por tal doença, que, na maioria
das vezes, é identificada mais como um
problema ético de conduta, do que atitudes patológicas.
Enquanto a doença está mantida em segredo pelo usuário, dificilmente ele pede ajuda para sair dessa situação e, mesmo quando a família já sabe do problema, podem surgir então as
"proteções", que acabam gerando
mais progressão da DQ e maior dificuldade, até o núcleo familiar chegar
a ser vencido pelas resistências homeostáticas, surpreender-se paralisado nos seus papéis, com alto grau de
descaracterização de desempenho dos
papéis familiares e pedir ajuda a um
terapeuta para sair do regime de hostilidade/agressividade explícito
que já deve estar deflagrado.
O resgate se dá por duas mudanças imprescindíveis: primeiro, a entrada num programa de terapia específico da DQ (abstinência) e, segundo, pelo desligamento emocional
interpessoal (quebra dos mecanismos
de proteção/facilitação) entre o usuário e seus familiares.
Na terapia, quaisquer outros temas
psicológicos ou situações de vida são
colocados em segundo plano, favo-
recendo sempre o tratamento claro e
objetivo das questões imediatas do alcoolismo e drogadição.
Projeto de Evitaçio e Medicamento -Os pacientes são orientados
no processo de evitar o uso da substância de escolha com uma programação bastante delineada de evitaçio,
com treinamentos de enfrentamento de situações de risco de uso ( de recaída), nas amizades, nos lugares e nas situações de uso e no trato com situações psicológicas (medos, raiva, cul-
pa, mágoas).
Em muitos casos, há a necessldade de tratar com medicamentos, sejam protetores da Síndrome de Abstinência (tranqiiilizantes, anti-de-pressivos) ou recuperadores da nutrição (vitamínicos). Pode ser necessário promover a Adição Substitutiva:
usar o medicamento substituindo o
uso da droga de escolha e, mais tarde, ir promovendo a retirada progressiva do mesmo.
Terapia da Família (Desligamento Emocional) - Os familiares são
treinados a não voltar ao esquema
"protetor", que já sabemos ser mais
que isso, ser facilitador da progressão da dependência química. Muitos
familiares têm que voltar a uma posição mais auto-centrada, privilegiando
o retomo ao stu próprio desenvolvimento pessoal/individual, se permitindo ganhar uma visão mais distanciada do problema, re-aprendendo a
jogar seus papéis sociais com calma e
naturalidade.
Posição do Terapeuta -O terapeuta pode, muitas vezes, ser englobado nesse regime de proteção/facilitação e precisa constantemente estar
se questionando sobre sua função diante do paciente e dos familiares, pois
enfrenta "testes": pelo paciente, que
pode estar sempre pedindo aceitação,
desculpas, cumplicidade, e pelos familiares, que vão estar pedindo ajuda
para se manterem à distância do problema, convivendo, no entanto, no
mesmo cenário doméstico - o lar.
Ambas as partes podem requisitar alianças ao terapeuta, que podem vir
como propostas bastante difíceis de
serem aceitas ou negociadas.
Assim, paciente, familiares e terapeuta precisam ganhar uma independência emocional recíproca, retornando a vivenciar a segurança pessoal suficiente para continuar seguindo
em frente na evitação e no desligamento interpessoal, que vai levar o
núcleo familiar ao restabelecimento
de uma noção não ameaçada de crescimento e continuidade existencial da
vida sócio-familiar.
Paulo Zampieri
(Psiquiatra, psicodramtista desde 1978, presidente fundador da Associação de Psicodrama e Sociodrama Revolução Creadora - São Paulo e coordenador do Progrma Terapêutico do Instituto Morumbi de Psiquiatria - SP)
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